A importância de Johanna Sigurdardottir

sexta-feira, janeiro 30



Pode ser uma política competentíssima, estou certa que seguramente o será, mas ser lésbica assumida é já motivo de orgulho para tantas mulheres por esse mundo fora e nós não somos excepção. Há por aí quem diga que esse facto não tem importância nenhuma, que ninguém quer saber da vida sexual de ninguém mas considerando que a senhora é uma mulher e lésbica assumida, em muitos países do mundo (Portugal incluído) nunca teria sequer uma hipótese de chegar a membro do parlamento, quanto mais a chefe de governo!

Já sabemos que Portugal tem uma das representações femininas mais baixas da Europa na assembleia. E quanto a homossexuais assumidos? Penso que a representação será mesmo de 0%! Considerando que os homossexuais representam cerca de 10% da população, quem está lá para defender os nossos direitos? Não assumidos dizem as más-línguas que haverá uns poucos (começando pelo Paulo Portas), mas quem será o primeiro a levantar-se e a procurar activamente defender os direitos duma minoria que tem sido humilhada e reprimida ao longo dos séculos?

Em que raio de armário estará o nosso Harvey Milk escondido??

A idade da inocência

quarta-feira, janeiro 28



Após o anúncio já esperado que o casamento homossexual voltará a estar na agenda política do partido que constituirá o próximo governo (há que ter esperança!), sei que iremos voltar ao velho tema da "opção" versus "orientação" sexual e como tal deixo já aqui a minha contribuição.

Tenho pena que os outros não saibam o que é nascer-se assim, quem é homem não sabe o que é ser mulher, quem é mulher não sabe o que é ser homem e quem é heterossexual não sabe o que é ser homossexual. Um dia um rapaz vê uma menina e aquilo mexe com ele e a partir daí identifica-se com a vasta maioria sem mais quês nem porquês.

Um dia uma menina vê outra menina, alunas ainda da primária num tempo longínquo em que o sexo era um tema tabu, e aquilo mexe com ela. Nem dez anos ainda feitos e já sabe que a Teté ilumina os seus dias, tal como o sol num dia quente de verão. Não vê televisão, nem sabe ainda o que isso é, as leituras resumem-se àquilo que os professores mandam ler, sabe por observação que os casais se compõem de um pai e de uma mãe e no entanto ela tem a mente fixada na Teté. Acha os rapazes feios, maus e sujos. Não sabem falar, cospem-lhe para cima e andam sempre aos pontapés e aos murros. Com a Teté é tudo diferente. Ela sorri-lhe duma forma tão carinhosa e ternurenta. Carente de mãe, já falecida, a menina aprecia essa parca bondade que lhe é dispensada e declara Teté a melhor pessoa do mundo, para além da mais bonita e simpática.

Procura o contacto físico com ela, nada parece real até ser tocado e sentido na pele. As mãos que se dão, os olhares que se trocam, os segredos mais íntimos sussurrados ao ouvido, é o começo duma relação diferente de todas as outras, sem nome ainda porque uma criança que nem dez anos tem não consegue definir algo tão complexo como a atracção sexual entre dois seres humanos.

Os dias passam sem pressas, aparentemente todos iguais mas sempre diferentes porque partilhados com a Teté e só quem vive uma tamanha amizade sabe a relevância que os pequenos gestos e olhares podem ter na vida duma criança. Um dia Teté diz-lhe que quer dar-lhe um beijo, parece uma coisa tão banal, afinal todos os dias se beijam quando se encontram e ao final do dia quando se despedem uma da outra. Mas não, o beijo que ela queria não era desses inocentes em que os seus lábios se encostam às suas bochechas redondas e afogueadas. Teté queria beijá-la na boca como já tinha visto adultos fazerem entre si. E esse pedido, esse desejo vindo duma sexualidade prestes a despertar, consumiu-a dias e dias seguidos. Se por um lado ela também queria beijar Teté dessa forma por outro tinha medo de estar a entrar num quarto proibido, até porque os beijos na boca não eram algo usual de se ver naquele tempo. Não sabendo ainda os caminhos que se abririam para si temia o desconhecido. Nem lhe passava pela cabeça que os tormentos seriam iguais se tivesse sido o Pedro a pedir-lhe um beijo em vez da Teté. Era o beijo em si que a inquietava, e não o facto da Teté ser uma menina tal como ela.

Passado uma semana esconderam-se na casa de banho para faltarem à aula de português e fugiram para o recreio quando já os outros meninos se encontravam a conjugar verbos sem saber o impacto que aquele momento teria na vida daquelas duas meninas. Foi ali mesmo, por baixo do parapeito da sala de aula de onde escorregavam pretéritos imperfeitos e mais que perfeitos, que ela e Teté se aninharam e muito ao de leve deixaram as suas bocas tocarem-se durante uns segundos que lhes pareceram uma eternidade. Como é que um simples gesto, um toque tão inocente, marca e define para sempre a vida de duas crianças que se descobrem homossexuais sem saberem ainda as dificuldades e sacrifícios que essa "escolha" lhes irá acarretar ao longo da vida?

Não "escolhemos" ser homossexuais, podemos é escolher não viver essa nossa característica na sua plenitude. Podemos escolher casar para que ninguém desconfie dos olhares lascivos que deitamos às irmãs dos nossos namorados. Podemos escolher ser mães porque temos essa vontade e esse direito. Mas bem lá no fundo e independentemente de quem esteja a dormir connosco na cama, não podemos apagar da memória nem dos sonhos essa tarde fresca de primavera em que demos o nosso primeiro beijo.

Devia ser simples para qualquer outro ser humano compreender que isto não se explica com meros "porque é assim que deve ser". Nós entendemos bem esse "é assim que deve ser", mas isso não ajuda o que sentimos em relação às pessoas com as quais nos cruzamos ao longo da vida. Ninguém sabe porque é homossexual, ninguém consegue explicar racionalmente aquilo que sente. Sei que a Igreja irá tentar pôr a homossexualidade ao mesmo nível da pedofilia e da bestialidade e que isso irá entristecer e humilhar milhares de pessoas que se esforçam todos os dias para serem seres humanos dignos, respeitadores e respeitados no seio da sua comunidade.

As batalhas que ainda nos faltam travar são imensas! Só espero que tod@s tenham capacidade e coragem para enfrentar as tantas barreiras que ainda nos faltam transpor até sermos vistos e tratados como membros plenos das sociedades que nos acolhem. E espero tanto que um dia toda a humanidade compreenda que ninguém "escolhe" ser homossexual, é algo que está tão enraizado em nós que nem ameaças, insultos, ou tratamentos de choque conseguiram erradicar. Não desistam nunca de lutar pela vossa felicidade, pelo vosso direito de viverem uma vida ao lado da pessoa que amam, estou a torcer por tod@s nós!

Afinal, lésbica simples ou com... gelo?

sexta-feira, janeiro 16

Há coisas que não entendo. Uma delas é esta velha discussão de que o lesbian chic é para gajos e foi uma invenção extraterreste. Que uma verdadeira lésbica tem que ser camião, sapatão, butch e por aí fora, porque as outras são só para enganar. A mim tanto me faz. Verdade!
Irrita-me discutir sobre camisas xadrez e cabelos curtos, sobre o direito ao seu uso e se está na moda. O resto quanto a mim é que conta. Para cada uma contará de maneira diferente. O que quero dizer é que, importavam-se lá as gajas se a Angelina (para generalizar) aparecesse para aí de camisão largo e de ténis. Ouço em demasiados sítios que esta coisa de aparecerem sempre miúdas p'ro bonitinho é redutor do mundo lésbico real, que o L word é uma fantasia (é uma série, claro que é), e por outro lado, deviamos ser todas assim.
Não, as lésbicas não têm que ser feias e se forem, qual é o problema? Gente feia é o que mais para aí há. Mas quem é que não gosta de ver uma miúda gira? Fazem o favor de me explicar!

Monte de vampiros!

quarta-feira, janeiro 14



Ah não, o que o cardeal patriarca queria dizer era que as mulheres devem pensar duas vezes antes de casarem com um homem, um qualquer, católico, muçulmano, seja de que raça ou religião for, é sempre um monte de sarilhos! Porque eles bebem, e mentem e enganam-nas com o primeiro rabo de saia que lhes apareça à frente, e depois batem-lhes por motivos tão irrisórios como a frustração pela demora em ser servidos ou a derrota dum qualquer clube de futebol. Era isso que o senhor queria dizer, seguramente… até porque ele não é xenófobo, nem sexista, nem homofóbico, nem nada disso… é um senhor iluminado que só pensa no bem-estar das mulheres como um todo!

Considerações em jeito de comentário

sexta-feira, janeiro 2



Depois de um Natal bem quente passado na cama a duas (cheias de febre) mas nem por isso lá muito sensual, hoje já me encontro mais compostinha graças à minha querida mulher que mesmo estando também ela doente tomou conta de mim melhor do que qualquer mãe ou enfermeira!

Em relação à polémica que despertou o texto que publiquei nas vésperas de Natal, sobre se devia ou não misturar sexo com a noite santa aproveito para esclarecer que de algum modo entendi os comentários da Teresa como sendo pouco simpáticos, pelo contrário. Ela expressou o seu ponto de vista, está no direito de o fazer e eu por aceitar comentários aos textos que publico tenho o dever de os considerar.

Uma pessoa que escreve num sítio público sujeita-se a críticas, é normal, é saudável, para mim é até positivo especialmente porque temas como o erotismo lésbico não são algo que debato frequentemente com os meus conhecimentos, maioritariamente porque à partida não gosto de chocar as pessoas, prefiro passar despercebida e como tal aqui pareceu-me um bom sítio por onde destilar uma parte de mim que me é importante. Os comentários positivos ajudam-me a sentir-me parte de algo que é maior do que eu, chamemos-lhe uma comunidade, embora a homossexualidade por si só não seja garante de nenhum outro tipo de compatibilidade entre as pessoas, neste caso entre mulheres.

Os comentários menos positivos, desde que sejam formulados duma forma simpática, como eu achei que fez a Teresa, obrigam-me a reflectir sobre as razões porque decido falar ou ser duma certa forma e neste caso em específico fizeram-me pensar sobre os motivos porque um dia resolvi que não era compatível para mim ser lésbica e católica.

Em parte tem a ver com o sexo também. A Igreja católica aprova e até incentiva uma forma de relação sexual, entre um homem e uma mulher com o fim único da procriação. É legítimo que o faça, eu própria considero que esse acto tem o seu quê de divino pois nesse momento de concepção de uma nova vida ambos, homem e mulher, se poderão sentir mais perto de Deus. Não quer dizer que aconteça, há sexo e sexo e há muitas crianças infelizmente concebidas de forma indesejada. Mas a natureza criativa presente no acto sexual entre um homem e uma mulher está sempre lá e é uma força muito potente, isso não se pode negar. Mesmo em relação à concepção de Jesus, e mesmo que aceitemos que a Virgem Maria tenha sido fecundada por um espírito, em vez de um qualquer homem, essa força criativa estava lá, presente nesse momento em que uma nova vida foi concebida. O acto do nascimento de Jesus não pode estar arredado desse acto que foi o da sua concepção, e como tal acho que encontrei alguma legitimidade em misturar o sexo com a noite de Natal.

Mas uma vez que a Igreja condena qualquer outro tipo de relacionamento sexual, eu não poderia manter-me católica porque isso seria achar que o tipo de relacionamento sexual que pratico é menor do que o relacionamento sexual entre um homem e uma mulher, porque é estéril, não contém potencial criativo. Ora eu não acho isso, para mim qualquer tipo de relacionamento sexual entre duas pessoas que se amam é muito válido, valioso até porque o ser humano se complementa e completa através do amor que sente por outra pessoa. A nossa forma de amar é diferente, sem dúvida, mas recuso-me a aceitar que seja menos válida ou menor! Aliás vou mais além e recuso-me a reconhecer autoridade moral aos padres para falarem sobre algo que desconhecem por completo. Nenhum homem, por mais espiritualmente iluminado que seja, pode falar sobre o que é o amor entre duas mulheres. Nunca saberá do que fala, não tem nem ideia do potencial afectivo, emocional e energético que existe, que se partilha, que se dá, que se recebe mesmo não estando ali presente a força criativa!

Mesmo assim não sou descrente, acredito numa força superior e incompreensível, algo que por vezes apenas pressentimos, uma energia infinita da qual todos comungamos um pouco. Poderia chamar a isso deus, embora não o conceba de todo como o Deus machista, implacável e castigador dos católicos. Aos olhos da Igreja eu sofro de um duplo estigma, por ser mulher e por ser lésbica. Não me esforcei nem me esforçarei por pertencer a algo cujos princípios morais me rebaixam e arrasam, nem carregarei o fardo de culpa milenar que o clero atira sobre os ombros de todas as mulheres desde que Eva supostamente seduziu Adão e o levou a com ela consumar o pecado original.

Agradeço a todos os comentários, mesmo aqueles que me fizeram pensar em tudo o que aqui tentei transmitir, e quero deixar um agradecimento especial à Alice, que mais uma vez me cumprimentou pelo uso dum português "cuidado". É verdade que naquilo que escrevo procuro a busca duma certa perfeição poética (mais do que gramatical) em jeito de homenagem à minha língua materna, que adoro e venero duma forma quase surreal. A linguagem escrita é para mim o único instrumento que tenho para exprimir tudo aquilo que sinto. Escrever é a minha única arte, esgrimir as palavras, atirá-las ao ar e escolher as que melhor cabem nas minhas construções é tanto um passatempo como uma obra do destino. E quem escreve por gosto não cansa.

Desejo a todas um excelente ano de 2009, cheio de saúde e amor. E inspiração também, especialmente às outras autoras deste blog, que se inspirem e que venham aqui partilhar as suas experiências para que neste ano que agora começa este blog volte a ganhar vida!

As Doze Badaladas

quarta-feira, dezembro 31


1. Que o próximo ano me corra tão bem como este.
2. Que a crise acabe, que já não posso ouvir falar dela.
3. Que o Sócrates termine o curso e que vá trabalhar para outro lado qualquer.
4. Ganhar o euromilhões. (Esta tinha que ser.)
5. Quero um bar lésbico/gay em cada bairro de Lisboa e, já que é para pensar em grande, em todas as cidades do país.
6. Que o trânsito no natal que vem diminua. E no resto do ano também.
7. Uma casa toda em vidro no meio de uma praia paradisíaca, como prenda de anos.
8. Quero uma presidente da câmara gira, lésbica e com casamento planeado para este ano ainda.
9. Quero um primeiro ministro gay... assumido!
10. Quero que a igreja acorde para a vida e que o papa entre na marcha gay .
11. Que o gay pride este ano seja em cima da ponte 25 de Abril. (Talvez não seja boa ideia...)
12. Que não sejam precisas passas para o ano. (Eu não comi as minhas o ano passado.)

Bom 2009!

Conto de Natal lésbico – versão angélica

quarta-feira, dezembro 24



Nestes dias frios sabe bem voltarmo-nos para dentro e recordarmos memórias quentes e doces de outros tempos. Apesar de ser verdade que não há nada como viver o momento presente, por vezes são também essas memórias que nos ajudam a apreciar ainda melhor aquilo que temos. Posto isto e desejando a tod@s um excelente Natal, aqui vai mais uma memória desenterrada do meu baú para vossa apreciação.

Terão passado mais de trinta anos sobre aquilo que agora conto, talvez a história não tivesse sido assim, mas quando a embrulhei quis preservá-la com toda a inocência dos meus verdes anos. Não foi a minha primeira experiência sexual com uma mulher, mas terá sido das primeiras, naquelas alturas em que tudo era ainda praticamente desconhecido, e fascinante também pelo muito que se imaginava e adivinhava por trás de meninas de caras de anjo com cheiro a terra molhada e a pinheiros bravos. Seríamos todas um pouco selvagens, naquele tempo não havia quem nos controlasse como hoje. Ninguém nos perguntava o que fazíamos nem com quem, desde que as tarefas diárias aparecessem cumpridas.

Com dezasseis anos eu era já uma mulher feita, carregando o fardo mensal que me tornava fértil, apesar de me sentir dona dum útero morto à partida, mero ponto de passagem dos meus óvulos virgens de semente de homem que eu não queria nem desejava em mim. O prazer sexual já o tinha descoberto, e os meus sonhos e fantasias encontravam-se povoados de belas ninfas louras, angélicas e sensuais que me cobriam de carícias e beijos e me faziam acordar num estado pré-orgásmico difícil de justificar.

A aldeia vivia no frenesim habitual da época festiva. Todas as famílias se preparavam para a festa familiar que se avizinhava e a minha não era excepção. O meu pai andava fora, em busca de trabalhos sazonais, e as minhas avós afadigavam-se na preparação dos animais para a matança e posterior comezaina. Alheia ao que se passava à minha volta eu e Joana preparávamos a nossa fuga de casa. Joana era a minha paixão no momento, aquela que eu mais amava desde sempre. Era mais velha do que eu mas era eu que liderava os nossos jogos passionais. Ainda hoje penso como é possível uma menina, quase ainda criança, saber tanto como eu já sabia sobre a anatomia feminina e sobre as melhores maneiras de proporcionar e obter prazer duma mulher. Talvez eu tivesse mesmo nascido com o diabo no corpo, muito curiosa sem dúvida, e diferente, bastante diferente de tudo o que eu conhecia naquela aldeia perdida nos confins do mundo civilizado.

Se é verdade que algumas de nós se reconhecem pelo mero olhar, eu possuo essa característica e assim que vi Joana soube que ela era como eu. Talvez seja pela profundidade, pelos segundos extra que deixamos que os nossos olhares se passeiem pelo corpo que se nos oferece com plena aprovação e consentimento da dona duma pele tão apetitosa que nos dá vontade de tocar e acariciar. Assim Joana olhou para mim e eu para ela e desde esse dia decidimos que o presente de Natal uma da outra seria um orgasmo a dobrar. Serão coisas de juventude inconsciente mas nessa altura uma noite com Joana era o melhor presente que me poderiam dar.

Hoje não me recordo se Joana era loura ou morena, mas sei que tinha uns olhos de um azul escuro, quase violeta. Gosto de imaginá-la loura, usando uma paleta de cores muito minha, pinto-lhe umas bochechas de tons rosados, desenho-lhe um nariz pequeno e empinado e uma boca não demasiado grande com uns lábios carnudos e muito sensuais, seguindo-se-lhe um corpo perfeito de ninfeta com pequenos seios redondos e macios como duas meias maçãs, como se tivesse saído dum qualquer conto de fadas pronta para ser apreciada por quem a esperava com uma gula desmesurada própria da idade da eclosão dos sentidos. O que eu suei por ela, de cada vez que a sentia perto de mim, a olhar para mim, querendo-me como eu a ela, da mesma forma, escorregando as duas para sonhos carregados de erotismo e prazer numa idade em que quase nos masturbávamos com o olhar.

Foi ela que quis esperar pela noite de Natal, dizia que nessa noite ninguém nos viria procurar, ninguém se daria a esse trabalho sabendo que não vale a pena procurar quem não deseja ser encontrado. A noite de festa faz-se de quem quer ali estar e não dos que fogem procurando algo que ninguém ali lhes pode dar. E o que eu queria só estava ao alcance de Joana, da minha ninfeta de olhos violeta e pele clara e macia.

Aproveitamos a saída dos adultos para a missa e fugimos para o esconderijo que tínhamos previamente preparado. Eu tinha encontrado uma braseira no sotão de casa de uma das minhas avós e Joana tinha levado cobertores que espalhamos no chão do quarto dos seus irmãos mais velhos que já não moravam ali. A cama era velha mas o colchão sempre providenciava mais conforto do que o chão de madeira velha pelo que arrastámos o colchão até perto da braseira para nos mantermos quentes enquanto durasse a nossa entrega mútua de presentes. Joana tinha conseguido roubar uma garrafa de cidra a um dos seus tios e começamos por brindar a nós, ao nosso primeiro Natal juntas, e àquilo que seria a nossa primeira noite de amor. Eu já tinha alguma experiência, a Joana não, por isso fui eu que lhe tirei o copo da mão e suavemente a empurrei de encontro ao colchão onde nos tínhamos sentado. Sentindo os seus olhos sorridentes em mim aproximei-me e comecei a desapertar-lhe os botões da camisa, inebriando-me com o seu cheiro quente e doce à medida que aproximava a minha cara dos seus pequenos seios redondos e perfeitos.

Há momentos que queremos preservar igual, parar o tempo, sentir o mesmo durante muito mais do que aqueles breves segundos em que a minha boca tocou na pele macia dos seios de Joana e alguma coisa se iluminou dentro de mim. Senti o calor a espalhar-se da minha língua para a minha boca, descendo pelos meus seios até atingir em pleno o meu sexo quente e molhado. Despi Joana por completo para finalmente conseguir contemplar o seu corpo ali deitado em oferta merecida e conquistada por mim.

É sempre difícil para quem ama o belo expressar por palavras aquilo que é amar uma mulher, como descrever o seu cheiro, a suavidade da sua pele, a doçura do seu sabor, a cor maravilhosa das auréolas dos seus seios, daquilo que se esconde para lá da penugem do seu sexo... deveria pintá-la em vez de escrevê-la, e mesmo assim nunca lhe faria justiça!

Não queria atemorizá-la, sabia que ela nunca tinha sido tocada, prossegui da forma mais gentil que consegui, acariciando-a e beijando-a à medida que a minha boca descia pela pele macia da sua barriga. Aqueles eram os primeiros caminhos do prazer no corpo de Joana, traçados por mim que a amava mais do que a própria vida! Tinha que ser tudo memorável, uma experiência única que jamais seria esquecida por ambas!

Joana não teve medo e entregou-se totalmente a mim, abrindo as pernas e deixando-me escorregar até chegar bem perto do seu sexo. Olhei-a e vi o assentimento pleno que me convidava a avançar por isso o fiz, milimetricamente, célula a célula, até passar a barreira da penugem, atravessando-a primeiro com os dedos e depois com a língua. Fechei os olhos para sentir e saborear mais intensamente aquele momento tão bom. Joana sabia a... uma mistura de... maçãs com compota de framboesas... mas com um cheiro intenso a flores... jasmins... orquídeas... algo de indescritivelmente bom! Eu sentia que ela estava a gostar do prazer assim proporcionado, pela forma como o seu corpo se mexia e o seu sexo se levantava de encontro à minha boca expectante e desejosa de saborear mais ainda. E eu era a primeira a provar o sabor de Joana e saber que nunca ninguém tinha chegado ali servia como combustível para a minha já de si intensa excitação!

A minha língua continuava a dançar à volta do interior do sexo de Joana, passeando-se pelas bordas, sorvendo aquele sabor intenso e perfumado, tão doce... até que ouvi Joana a gemer, senti o seu corpo tremer e de repente a minha recompensa chegou na forma de um líquido espesso e abundante, transparente e tão doce como o mel. Inundou-me a boca, o queixo, o pescoço, transbordou-me até aos seios, fiquei coberta do néctar puro e doce da virgem que se tinha deixado possuir e deixei que os meus poros absorvessem a santidade dele e do momento! Inebriada que me encontrava pelo cheiro do sexo de Joana nem me apercebi que ela já se tinha apoderado do meu e vigorosamente me arrancava das entranhas um inesperado orgasmo poderoso e profundo! Assim as duas baptizadas uma pela seiva da outra nos enrolamos nos cobertores a beber cidra e a rirmos daquilo que tínhamos feito e que nos tínhamos dado nessa noite de Natal.

E é isso que vos quero desejar a tod@s, que passem uma noite de Natal bem quente e sensual ao lado de quem mais amam, com muito carinho, amor e paixão!

E o Beijo, hum?!

segunda-feira, dezembro 22

Nos preparativos para a grande passagem de um ano para o outro surgiu uma pequena dúvida:
Como se passa um ano sem o selo do costume, o beijo? É que um casal amigo não assumido perante as crianças colocou uma cláusula obrigatória, a de não haver beijos na boca e coisas do género. Cláusula aprovada, festa organizada e várias hipóteses em vista:
1. Fechar as crianças, acidentalmente, na casa de banho por volta das 23:5o.
2. Fecharmo-nos a nós, acidentalmente, na casa de banho por volta das 23:5o.
3. Embriagar as crianças a ponto de elas não saberem o que estão a ver.
4. Dizer que é um jogo que fazemos e que este ano calharam aqueles pares.
5. Dizer que gostavamos de experimentar a sensação de ser a Diana Chaves por um momento.
6. Dizer que comemos uma passa da outra pessoa e que isso não dá sorte.
7. Embriagarmo-nos a nós próprias a ponto de não sabermos o que estamos a fazer...
Sem beijo é que não!

Um utópico 2009!


Estamos inevitavelmente em tempo de balanço e pensamentos profundos. Ninguém escapa. Quem não gosta do Natal tem sempre, na semana a seguir, o final de ano. E qual não é a alma que não pára, nem que seja um minutinho, a pensar no que já passou e no que há-de vir?

Pois a minha reflexão este ano, aqui no blog, vai para a discriminação. Grandes progressos dirão uns, grandes paragens dirão outros, e até há espaço para os desiludidos que já contavam com algumas medidas como certas. Não há publicação que não tenha abordado o tema nem programa de televisão ou rádio que não falasse na dita. Há dois dias, mais do mesmo. Pronto, também vou dizer qualquer coisa...

Surgiu-me a reflexão do ano: pertencemos tod@s a alguma minoria e simultâneamente a alguma maioria. Ou porque é a cor da pele ou a orientação sexual, uma deficiência qualquer, um problema de saúde, ausência de pai ou mãe, desemprego, ou por outro lado, grande vantagem financeira, familia hiper-numerosa, ou são muito altos ou muito baixos, muit@s namorad@s ou nenhuns, inteligência que ninguém aguenta... Já estou a ouvir alguém dizer que "pois, há coisas e coisas!".

Pois há! Há as nossas e a dos outros. Ser diferente e ter consciêcia dessa diferença é ter a oportunidade de poder aprender alguma coisa. Está tudo nas nossas mãos. Tenham uma vida diferente e indiferente. Bom ano! ... Não custa um bocadinho de utopia...

Sugestão de Leitura

quarta-feira, dezembro 10



Ouvi a Senhora falar na televisão e gostei. À falta de referências bibliográficas à altura para a apoiar na descoberta da sua orientação sexual e no seu eventual coming out, Laura Levin resolveu escrever um livro que ajudasse outras mulheres que procurassem o mesmo. Chama-se o dito, "Same sex in the city".

Gostei porque aprecio pessoas que tomam nas suas mãos coisas que acham que deviam ser feitas. À opção do queixume e da inércia preferem entrar em acção e melhorar o que acham que tem que ser melhorado.

Gostei porque apesar de não ter nada contra chamar as coisas pelo nome e de isso ainda ser necessário para torná-las visíveis e "normais", concordo com a opinião da autora de que os rótulos são para a roupa.

Gostei porque apesar de não saber a idade da rapariga, pareceu-me bastante jovem ou seja, na minha opinião, não perdeu tempo até ser crescidinha para fazer as coisas pelo seguro, que é como dizer quando for mais fácil para ela. Assumiu essa parte de que nem tudo são rosas quando se trata da nossa vida pessoal. Há que lutar contra as adversidades, às vezes...

E já agora, para terminar, faço minhas as suas palavras e uso um rótulo que poderia ajudar na aceitação das diferenças: sejam "bi happy".

Podia Acabar o Mundo!

sexta-feira, dezembro 5

Até podia acabar o mundo antes de eu pensar que a ficção portuguesa ia passar a exibir em horário nobre uma telenovela com um casal de lésbicas ao beijos na boca!

Epa, que isto está melhor que no Brasil. Fiquei surpreendida, sim senhora. Parece que não é só o beijinho da praxe e que o casal vai ser encarado pela produção como mais uma qualquer parelha a fazer parte da história.

Fica o registo e o "viva a indiferença!". Resta-me esperar algum efeito em algumas cabeças no sentido de desfazer preconceitos, e talvez lá mais para 2050 um L Word português... e já agora, se não for pedir muito, umas leis mais igualitárias.

Salomé - a encantadora de serpentes - parte II

sexta-feira, novembro 21

Claro que eu quis saber quem ela era e o que fazia às mulheres para as deixar assim! Numa escala infinitamente mais pequena também eu procurava algo em todas as mulheres que seduzia. Houve tempos em que também eu todas as noites me abandonava na doçura de corpos quentes e sempre diferentes. Salomé intrigava-me e fascinava-me. E quanto mais ouvia falar da sua mestria como amante de mulheres, mais curiosidade tinha em ir procurá-la talvez numa vã tentativa de a decifrar.

No dia em que finalmente nos encontrámos, no dia em que eu larguei tudo para ir ao seu encontro, eu soube porque Salomé fascinava todos aqueles que com ela se cruzavam. Salomé lia-nos a alma, trespassava-nos com o seu olhar directo e penetrante. Era impossível mentir-lhe, era desconcertante sentir que as palavras das nossas histórias se desmoronavam como castelos de cartas, cartas essas que ela depois escolhia a dedo, seleccionando as que eram verídicas das que não passavam de floreados cuidadosamente escolhidos para impressionar os outros. Foi a primeira, e única, mulher, a quem consegui ver a aura. Talvez eu não seja um ser demasiado espiritual, Salomé dizia-me que a minha aura variava entre o vermelho e o laranja, que supostamente são auras muito físicas. A dela variava de cor. Havia dias em que se passeava por todas as cores do arco-íris, e era impressionante vê-la no centro de tanta cor e luz. Dizia-me que comandava a sua aura, que a usava da maneira que melhor entendia, que se camuflava por trás de certas cores quando queria passar invisível e que usava outras para se valorizar quando queria que todos parassem para a olhar.

Comigo é quase certo que se valorizava, eu via-lhe, sentia-lhe o gozo nascente com que de repente aparecia a brilhar à minha frente. Eu ficava de boca aberta e queixo caído e ela ria-se do meu espanto pueril. Depois pegava-me nas mãos e lia-me o destino, dizia-me que eu seria fisicamente estéril mas que da minha mente brotariam muitas e muitas histórias, tantas que uma só vida não chegaria para as contar todas. Havia dias sombrios, dias em que Salomé se fechava para o mundo, envolvendo-se de negro e escondendo-se no mais profundo do seu ser. Depois desabrochava, vinha ter comigo e acariciava-me, pedia-me para lhe contar uma das minhas histórias inconsequentes e eu fazia-lhe a vontade. Tenho saudades das suas carícias experientes, as suas mãos de fada envolviam-me de tal forma como se estivessem a criar um casulo tão meu, tão primário, tão seguro que era como se de repente estivéssemos dentro do útero materno.

E fomos amantes sim, Salomé percebeu logo que eu era amante de mulheres, tal como ela. Também por isso, talvez por isso, ela me acolheu junto de si como se fosse alguém de família. Para além de ser amante de mulheres, nunca nenhum homem tinha tocado em mim, nunca nenhum tinha penetrado a minha intimidade que só algumas mulheres tinham conseguido apenas beliscar. Agradava-lhe o meu feminismo primário baseado na minha arrogante indiferença em relação ao sexo masculino. Não seria uma fêmea poderosa como ela, mas tinha as minhas aspirações e ambições. Era, talvez ainda seja, uma mulher muito criativa e isso no momento servia-me para seduzir mulheres belas que comigo se cruzavam.

Uma noite, antes de nos tornarmos amantes, foi-me dada a ver uma visão que nunca mais esqueci. Foi nessa noite que percebi que Salomé tinha poderes muito para além de qualquer outro ser humano. Estávamos numa lua nova de verão, e o tempo esfriou abaixo do que era costume para a altura do ano. As pessoas assustaram-se, pediam a Salomé que lhes visse a sua sina, que lhes garantisse que não vinha lá o fim do mundo. A mim incomodava-me a facilidade com que as gentes da aldeia se assustavam com meras mudanças do tempo. Não teriam mais em que pensar, coitados. Mas Salomé não lhes ficou indiferente e nessa noite isolou-se para tentar obter uma resposta.

Contrariamente ao habitual, eu segui-a através das matas e das florestas, até chegarmos a um grande lago, muito escuro e negro, tão diferente dos cursos de água transparentes e cristalinos onde estava habituada a banhar-me. A noite estava tão espessa que só conseguia ver Salomé, irradiando uma luz dourada, como se fosse uma pequena candeia avançando tranquila e segura pelo breu adentro. Ajoelhou-se à borda do lago e sussurrou algo num linguajar sibilante ao qual responderam umas dezenas de serpentes que surgiram por debaixo daquele tapete lago espesso e escuro. Salomé falava com as serpentes! E logo começou a gesticular e a contorcer-se no meio delas num misto de transe e dança impossível de descrever! Era assim que se tornava una com a natureza! Era assim que interpretava os seus sinais, reconhecia-lhe os modos, adivinhava-lhe o destino! Não entendi nada do que ali foi mutuamente transmitido nessa noite, excepto um brevíssimo "não temas!" talvez mais direccionado a mim do que a ela.

Não falámos sobre o que se tinha passado, mas ela sabia que eu a tinha seguido e tinha presenciado o seu encantamento com as serpentes. Possivelmente até teria sido ela que me tinha instado a segui-la, como uma forma de teste às minhas fronteiras psíquicas. O que quer que fosse eu tinha superado a prova e como recompensa Salomé passou a tratar-me duma forma extremamente terna e carinhosa. Dia após dia aproximava-se cada vez mais de mim, cada olhar ia penetrando mais fundo, como se estivesse empenhada em potenciar aos poucos uma loucura difícil de controlar. Nesses dias a sua aura brilhava como nunca, definitivamente dourada, o que a fazia parecer uma deusa no meio dum sol resplandecente. E o ouro que nela via parecia escorrer para cima de mim, deixando marcas e caminhos no meu corpo que ferviam cada vez mais. Era como se me estivesse lentamente a envenenar.

Aos poucos eu deixei de pensar, de ver, de falar em nada que não fosse relacionado com Salomé. Estava de tal forma enfatuada que um dia não aguentando mais fui procurá-la. Ela já estava à minha espera, nua, deitada num belo leito de marfim coberto de finas sedas das mais variadas cores. Vê-la assim, oferecendo-se daquela forma a mim, foi um choque tremendo, que quebrou muitas barreiras, muitas algemas, muitas mordaças e me deixou de tal forma leve que penso que levitei até ao seu lado. O seu corpo estava tão quente, a ponto de ser quase insuportável tocar-lhe! Ela agarrou nas minhas mãos e entrelaçando os seus dedos nos meus beijou-me na testa, nos olhos, no nariz, no queixo e finalmente na boca. Foi aí que senti o meu corpo a aquecer, como se ela estivesse a transferir-me o seu calor, o seu saber, uma parte de si. Aquele nosso enlace parecia-me mais uma iniciação do que um mero ritual de cariz sexual. Os seus beijos tinham lugar marcado, o meu corpo não lhe era estranho e ela aparentava conhecê-lo melhor do que eu própria! Apoderou-se de mim e eu deixei-a entrar, deixei-a saborear-me, provar-me, explorar-me, sorver-me. Ao contrário do que normalmente acontecia não me sentia a esvaziar-me, pelo contrário, a paixão e o desejo iam aumentando, mesmo depois de me ter proporcionado uma série de orgasmos que me iam catapultando para novos e desconhecidos patamares de prazer sexual!

Não sei quanto tempo nos amámos, o tempo parou para mim e durante muito tempo não consegui sequer vislumbrar o que se passou dentro desse casulo temporal que ela teceu à minha volta. Não me podia impedir de sorrir cada vez que me lembrava de Salomé, mas a memória concedia-me pouco mais do que uma vaga sensação de bem-estar. Ainda hoje... é com grande dificuldade que pesco os bocados que ainda me faltam para entender o que correu mal na nossa história.

Acho que ela procurava uma nova Isilda em mim, ou talvez pensasse que a matéria prima era suficientemente moldável para criar algo novo e ainda melhor. Eu sei que mudei em todos os meses que convivi com Salomé. Sei que larguei partes de mim que nunca mais recuperei. E também sei que Salomé se dedicou a tentar fazer de mim a sua maior obra. Cuidadosamente, como outrora a sua mãe tinha feito com ela, arrancou espinhas e espinhos, alisou amolgadelas, lambeu feridas e poliu-me até à exaustão!

Apesar de tudo eu nunca consegui atingir o nirvana espiritual que ela previa para mim. Por mais noites que passasse agarrada ao seu peito, sentindo-a ofegante sobre mim, dentro de mim, não deixava de temer por um fim que eu antevia próximo. Aquela vida de cativa incomodava-me e aumentava uma certa ansiedade que Salomé tentava em vão dispersar. Talvez por sentir que eu me afastava em vez de me aproximar Salomé decidiu recorrer ao seu último reduto, sem saber, ou sabendo mas não querendo ver, que assim acabaria de vez com a nossa história.

Há sempre um momento na vida de todos os amantes fusionais em que um, ou ambos, chegam a uma encruzilhada no caminho comum. E nesse momento ambos têm que querer seguir para o mesmo lado com a mesma vontade e intensidade. Se tal não ocorrer isso representa sempre a morte anunciada da sua relação. O elo mais fraco, caso o haja, pode até ceder e seguir o outro, mas a parte de si que ficou lá atrás não segue com ele e um dia o outro perceberá que o que tem ao seu lado é apenas uma sombra daquilo que um dia teve. Ainda assim há quem tente métodos menos convencionais para convencer a sua amante a seguir o caminho mais longo e mais difícil. Ter usado as serpentes é algo que nunca perdoarei a Salomé, porque tornou a minha luta interior desigual e porque não levou em conta o meu asco aos animais que tanta ligação tinham consigo.

A história dessa noite fatídica não me vem regular e como tal não é fácil descrever com precisão aquilo que se passou. Sei que sentia um calor brutal em mim, mas também não sei se parte dele se devia a tudo o que Salomé já me tinha dito e feito até então. Seria inevitavelmente uma noite de paixão brutal, como outras que já se tinham passado entre nós. Os olhos pretos de Salomé roçavam o vermelho e queimavam os meus à medida que ela se aproximava de mim. Mantendo os olhos fechados com medo que ela me cegasse de vez, entreguei-me ao desejo e à vontade animalesca de me sentir presa de tão sublime predadora. Acariciou-me longamente à medida que me embalava com os seus estranhos e poderosos encantamentos. À medida que me ia sentindo cada vez mais leve e quente não pude deixar de sentir um ligeiro arrepio na perna que me levou a abrir os olhos. E o que vi... uma das suas serpentes, a maior delas todas, dirigia-se a uma velocidade estonteante na direcção do meu sexo molhado e convidativo! Era ali o fim do caminho, a parede feita de grossos tijolos do betão mais duro! Nunca deixaria uma serpente penetrar-me, por muito encantada que estivesse! Com uma destreza que não me julgaria capaz em tais circunstâncias e vencendo o nojo que tinha a tais criaturas, peguei na cabeça da serpente e localizando uma das muitas velas acesas que Salomé mantinha no seu quarto, queimei-lhe a língua! Assim, num só movimento incapacitei-a de jamais voltar a provar um sexo doce e delicado de qualquer outra mulher!

Inesperadamente Salomé desatou a urrar duma forma demoníaca, como se tivesse sido possuída pelo espírito da serpente que jazia moribunda a seus pés. Nesse momento tive medo de morrer envenenada. Tive medo que num acto de vingança fatal Salomé atiçasse o resto das suas serpentes contra mim. Mas naqueles segundos de desespero puro que certamente lhe trouxeram à memória a morte de Isilda e aproveitando que se encontrava ajoelhada tentando reanimar a sua serpente, parti dali para nunca mais voltar!

Demorei muito tempo a recuperar deste episódio insólito e ainda hoje não sei se estarei totalmente curada. Há noites em que ainda sinto um calor estranho em mim, em que os meus sonhos se transformam em pesadelos e só consigo acalmar quando ouço uma voz que me diz "não temas!" e talvez nesses momentos algures no mundo Salomé esteja a velar sobre mim, fazendo-me chegar o seu perdão pelo mal que lhe causei.

E é com alívio que termino esta missiva que se tornou muito mais longa do que eu previra. São assim as memórias, confundem-nos muito, desorganizam-nos e intrometem-se por demais nos humildes fiozitos de pensamento que tentamos manter claros e bem definidos.

Hello my name is Lizzy i'm a Lesbian

terça-feira, novembro 18

Para se divertirem:

http://www.lizzythelezzy.com/

Definitely better!



Seguindo a sugestão da Sara (ou foi da Rita? :-P) no Trio de Lésbicas, chega uma musiquinha para vos (nos) entreter enquanto congemino o resto da história da Salomé!

Salomé - a encantadora de serpentes - parte I

quinta-feira, novembro 13



Por vezes não me apetece brincar com aquilo que sinto conter a verdade mais profunda do meu ser. Nem sempre é bom achincalhar aquilo que não conhecemos porque um dia o amor toca-nos e nesse dia arrependemo-nos de tudo o que (mal) dissemos e fizemos em seu nome. Menosprezá-lo foi para mim uma forma de me defender contra uma força desconhecida. Mas quando um dia o amor me apareceu eu soube que tinha desperdiçado inúmeras ocasiões de introspecção sobre aquilo que o amor era para mim.

Tive demasiadas amantes na vida, pisei mil vezes o risco de me perder nos seus risos fáceis e orgasmos violentos, e hoje penitencio-me através das histórias que me escorrem da memória, guardo-as aqui como folhas secas que se coleccionam ao longo dos anos até que um dia nos esquecemos porque resolvemos preservar tanta insignificância durante tanto tempo.

Embora Salomé não fosse uma mulher insignificante, muito pelo contrário. Foi o caso mais estranho que tive, a primeira vez que partilhei uma mulher na cama com outro ser animado, mas estou já a salivar e ainda nem comecei a pensar naquilo que vou contar, nem como conseguirei deixar retratado o que Salomé deixou em mim. Esta é uma daquelas folhas que tardou a amadurecer e a secar mas penso que estou finalmente preparada para a deixar voar. Quero chegar ao fim do Inverno limpa e nua, igual ao dia em que nasci, antes de todas as ramificações e folhas que de mim brotaram ao longo da vida.

Abordar a mulher que Salomé era será sempre tarefa ingrata, até porque nunca conheci ninguém assim, em tantas e tantas outras que comigo se cruzaram. A mulher era mais do que uma força da natureza, era uma verdadeira instituição, daquelas que sabemos que já existiam bem antes de aparecermos e que continuarão a existir muito depois de não sermos mais do que nuvens de poeira a esvoaçar pelo meio de terras áridas de gente e de vida.

Não foi ela que veio ter comigo, já conhecia bem as suas histórias de encantamentos muito antes de ter tido a oportunidade de a ir procurar. Era uma lenda, um daqueles seres míticos de que ouvimos falar na infância e juventude e sobre a qual tecemos inúmeras considerações e criamos múltiplas fantasias. Salomé era a mulher do Prazer, com P grande, aquela sobre a qual todas falavam e que todos os homens temiam. Segundo a própria nunca tinha tido homem nenhum e isso era motivo de orgulho extremo. Dizia-se filha da terra mãe, gerada por partenogénese no seio duma virgem juvenil que nunca soube porque passados meses dum sonho violento e sanguíneo deu à luz uma menina de tez escura, de olhos tão negros e profundos. Se fosse crente, teria achado que a menina era seguramente filha do demo, mas felizmente para todas nós, a mãe de Salomé tomou o feito como uma dádiva da terra fértil que a rodeava, e tratou sempre a menina com deferência.

Idolatrava-a como se de uma deusa se tratasse, o seu quarto era um santuário, e um local de veneração profunda onde a sua mãe, livre do jugo masculino de um marido que nunca teve, se lhe dedicava em exclusivo. Oferecia-lhe o que de melhor tinha, desde histórias fascinantes sobre mulheres poderosas que viviam e governavam em mundos antigos a canções sobre tudo o que já se tinha passado e o poder dum futuro que ainda estava para vir. A mãe de Salomé não tinha dúvidas que a sua filha teria um grande impacto no seu tempo e na história de toda uma sociedade predominantemente dominada pelos abrutalhados machos da sua espécie. Ela sonhava com uma sociedade desprovida da raiva, agressividade e territorialidade tão presentes naqueles que se engalfinhavam uns com os outros a troco de um punhado de terra, de mulheres ou de filhos. Se ao menos a sua filha aperfeiçoasse a arte de génese espontânea, tal como lhe tinha ocorrido a si infelizmente sem que soubesse como o tinha feito nem como repeti-lo.

Não acreditava em nenhuma espécie de equilíbrio natural que adviesse da junção de machos com fêmeas porque os machos queriam sempre ser dominantes e nunca aceitariam uma mulher que se lhes sobrepusesse em todos os campos. Mais do que isso, ela seria uma mulher que dispensaria da presença masculina de todo! E talvez fosse o que a sociedade precisava depois de tantos séculos de penalização da mulher pela igreja e pelos homens. Como era possível que lhes traçassem (travassem!) o destino invocando a sua culpa exclusiva pelo pecado original? E como era possível terem conseguido enganar tantos milhões de almas durante tanto tempo, tantos homens que usavam e abusavam do complexo de culpa milenar das suas mulheres e tantas mulheres que se lhes subjugavam com medo... de quê??

Foi importante para Salomé que a sua mãe cuidadosamente lhe fosse retirando as finas escamas de culpa que se lhe colavam ao espírito como a todas as outras mulheres do seu (e do nosso) tempo. Assim a menina cresceu forte e destemida, com uma vontade e um desejo inabalável de ser tudo aquilo que pretendia e de viver conforme lhe desse mais prazer. Talvez fosse o seu olhar directo que incomodava os homens que se tentavam aproximar dela. Não se subjugava, não se submetia, não aceitava que não a tratassem como igual, aliás como ser superior que sentia que era. Era mais inteligente, mais astuta, mais brilhante e genial do que qualquer outra pessoa que conhecia. E era bela... de uma beleza rara, pura, imaculada, muitíssimo atraente e sensual.

Ninguém sabia bem o que Salomé fazia, dizia-se que usava os seus poderes de comunicação com os animais para adivinhar a sorte a quem a procurava, e como não eram raras as vezes em que acertava, as pessoas deixavam-lhe tudo o que tinham, casas, terras, fortunas que Salomé distribuía às gentes que viviam em bairros pobres e degradados. Nunca se tinha conhecido uma mulher tão generosa, tinha uma legião de admiradores que muito desagradava aos padres dos lugares por onde passava. Reza a história que um dia um padre a impediu de entrar na sua aldeia porque acreditava que ela era uma bruxa e não a queria perto do seu "rebanho". Ao que ela retorquiu que as bruxas não existiam, que eram uma invenção da igreja para acabar com as mulheres incómodas. E que não percebia porque é que a igreja se intrometia entre si e os que necessitavam da sua ajuda. E quem era que tinha nomeado a igreja retalhista da generosidade e bondade humanas? "Foi Deus..." lá balbuciou o padre, estupefacto com a argumentação da rapariga. "E quem é Deus? Onde está Ele? Já O viu? Já Lhe falou? Como sabe que Ele não me quer aqui?"... ao que o senhor já demasiado atrapalhado se afastou para a deixar passar, pouco habituado que estava a que questionassem as normas da sua igreja.

Com o passar do tempo alguns aventuraram-se a tentar chegar mais perto de Salomé, por vezes usando modos que a ela lhe pareciam demasiado grotescos, agarravam-na, queriam tocá-la e cheirá-la, alguns tentavam beijá-la. A todos ela tratava com uma enervante frieza que desarmava mesmo os mais fervorosos pretendentes. Não havia nada em si que a atraísse a tal espécie, nada lhe agradava nos seres humanos que a rodeavam. Cheiravam mal, não se cuidavam minimamente. Nem sequer conseguiam manter um discurso coerente, rapidamente davam mostras de falhas de raciocínio imperdoáveis. Salomé começava a convencer-se que seria um ser assexuado, indiferente que se sentia a qualquer ser de qualquer sexo. Até que um dia A encontrou, essa que foi a sua primeira (e há quem diga única) paixão. Isilda era uma mulher frágil que tinha padecido de um rol infindável de doenças desde a sua mais tenra infância. Via-se que podia ter sido uma mulher muito bela, mas tanto sofrimento tinha-a feito encolher ligeiramente. Era tão pálida que parecia quase transparente e eram raras as pessoas que se aproximavam por acharem que ela não seria seguramente deste mundo. Parecia um ser lunar, algo entre este mundo e outro qualquer desconhecido e assustador. A clareira que se formava sempre ao seu redor intrigou Salomé que quis conhecer aquela mulher quase translúcida de onde emanava uma aura muito intensa de cor violeta. Percebeu mesmo sem falar com Isilda que ela tinha muito para lhe transmitir e não mais a largou.

Isilda podia parecer fora deste mundo mas uma vez ultrapassada a barreira que a separava do mundo era uma mulher extraordinariamente fogosa. A fragilidade transformava-se em sensibilidade que dava lugar a uma quente sensualidade. A sua pele azulada alaranjava-se com a presença tão física e tão forte de Salomé. O beijo que as uniu foi fatal. Salomé percebeu que afinal era um ser sexual. E Isilda percebeu que tinha acabado de se apaixonar tão perdidamente que doravante seria a sombra de Salomé. Para onde uma fosse a outra seguiria. Salomé passou a ter 2 pares de olhos, 4 braços e 4 mãos estendidas na direcção dos mais carenciados.

E à noite na cama... digo eu que nunca as vi juntas sequer... à noite na cama dormiam tão juntas que uma não se distinguia da outra. A cor da pele de Isilda mudava de tom, feito camaleão e eram as duas uma massa só, uma só respiração, um só bater de coração. Nunca se vira uma relação assim em lado nenhum. Salomé adorava aquela mulher, amava-a tremendamente e tentava ser de tudo um pouco na relação, amiga, irmã, mãe e amante. Ia colmatando em Isilda todas as emoções que sentia que a mulher nunca tinha experimentado. Dava-lhe tudo... e daria a sua própria vida por ela mas infelizmente todos os cuidados que Salomé tinha com Isilda não foram suficientes para a tornar diferente do amalgamado de doenças em que ela se tinha convertido.

Um dia, numa noite fria de Inverno, Isilda não mudou de cor ao instalar-se na cama ao lado de Salomé. A sua tez azulada manteve-se assim como a sua respiração fraca e entrecortada de pequenos soluços. Os vários animais que seguiam Salomé para toda a parte transmitiam-lhe que o fim de Isilda estava próximo mas ela não os queria nem ouvir! Mas Isilda faleceu nos seus braços nessa noite e Salomé percebeu que afinal o seu poder não era ilimitado. Foi a maior decepção da sua vida, e abriu nela uma fenda tão profunda que nunca mais foi a mesma. Deixou entrar nela sentimentos que a sua mãe tanto se tinha esforçado por afastar, a raiva, a culpa, a amargura, o desespero. Pela primeira vez na vida chorou, chorou tanto que teve medo de se esvaziar de todos os sentimentos que um dia tinha nutrido por Isilda. Mas o tempo, esse tempo que dizem tudo curar, ajudou-a a enfrentar uma vida sem Isilda.

No entanto, nas noites frias de Inverno, e depois nas quentes de Verão também, passou a não suportar a solidão da sua cama vazia e desde o momento em que deixou de chorar Isilda passou a seleccionar companheiras que a fizessem lembrar de Isilda e que lhe aquecessem o corpo como Isilda fazia. Foi nessa altura que a lenda de Salomé enquanto amante insaciável começou a circular e chegou aos meus ouvidos. Diziam que nunca tinha querido um homem, não sabia o que fazer deles, nem com eles. Acreditava que se um dia tivesse que ser mãe o seu corpo se encarregaria dessa tarefa, sem precisar de parte alguma doutro ser humano. As mulheres que consumia eram apenas um ligeiro consolo à dor que ainda sentia pela morte de Isilda, e pela sua impotência perante tamanha transição. Ainda assim todas as que com ela se deitaram passavam a adorá-la ainda mais do que antes. Metade ou um terço de Salomé ainda era dose suficiente para as inflamar de um desejo e de uma paixão tal que nunca mais a esqueciam.

(A continuar, assim que me recompuser desta já de si longa missiva!)

 

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