É um bocadinho triste isso é!

sexta-feira, fevereiro 20

Gosto desta mulher!

Apesar da brilhante argumentação (ide ver o que escreve a Fernanda Câncio no DN – via Rita Cacao), e de muitos acharem que sim, que temos toda a razão e que devíamos ter todos os direitos, quer a coisa se chame casamento ou outra coisa qualquer, depois temos uma larga facção da sociedade a quem este tema do casamento entre homossexuais já chateia. Porque dizem que se deveriam estar a discutir outros assuntos (não invalida que se discutam na mesma), porque acham que é uma manobra política de diversão e deixa cá entretermo-nos todos com discussões "fracturantes" e "filosóficas" até termos assuntos mais mediáticos.

Mas a culpa de tudo isto não é nossa, que eu saiba ninguém pediu a jornais, televisões, revistas, blogs e tudo por aí fora para dedicarem o seu tempo a escreverem a favor ou contra o casamento entre homossexuais. Por mim nem havia discussão, a lei passava, eu casava-me e ponto. Como em todos os temas éticos e sociais sobre o qual a Igreja tem uma posição imutável, esta questão nunca irá ser pacífica na sociedade até daqui a umas quantas gerações (como não foram certamente pacificas as alterações legislativas que atribuíram direitos às mulheres e às pessoas de raça negra, como refere e bem a Rita Cacao). E como a sociedade adora uma boa disputa, melhor ainda se houver humilhados e feridos, acho que já nem importa de que lado, cá vai de alimentar os ódios de estimação e dar tempo de antena a quem de outra forma nunca o teria.

Interessa-me alguma coisa aquilo que um qualquer burgesso que nem ler ou escrever sabe pensa sobre o facto de eu me querer casar com a mulher que eu amo? Interessa-me que ele ache que todos os homens homossexuais andam por aí disfarçados de mulheres e que todas as mulheres lésbicas se pareçam com camiões de 8 rodados e já agora com bigode e barba farfalhuda? Não, nada, zero!!

É uma questão de direitos fundamentais, nós somos uma minoria que nunca será aceite como igual pela facção conservadora da sociedade (que provavelmente ainda hoje não digere bem a igualdade de direitos entre homens e mulheres, entre brancos e pessoas de raça negra), e sendo Portugal um país laico, onde existe uma clara e intencional separação entre estado e Igreja, não devia sequer estar a haver discussão de espécie alguma!

Ai que nervos!!

terça-feira, fevereiro 17



Confesso que fiquei pregada à televisão e segui com enorme atenção tudo aquilo que foi dito ontem à noite no debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo no programa Prós e Contras da RTP1. O lado daqueles que são a favor estava muitíssimo bem representado por Miguel Vale de Almeida, a Dra. Isabel Moreira, o Dr. Pamplona Corte Real, Daniel Oliveira, Paulo Corte Real, uma brilhante Fernanda Câncio e uma plateia cheia de pessoas querendo ver a sua dignidade (ou a de amigos e familiares) reconhecida pelo estado. Os argumentos usados a favor do acesso ao casamento civil por pessoas do mesmo sexo são sobejamente conhecidos a começar pela nossa própria constituição que como referiu a Dra. Isabel Moreira proíbe a descriminação com base na orientação sexual do indivíduo. Se a constituição é aquilo que nos rege de mais básico e fundamental então a lei que regulamenta o acesso ao casamento civil é discriminatória porque impede uma pessoa homossexual de casar com uma pessoa do mesmo sexo.
Do lado daqueles que são contra ouvi argumentos de arrepiar, de pessoas que são supostamente cultas, inteligentes e deviam ser informadas sobre aquilo que se estava ali a discutir. Tirando o Padre António Vaz Pinto que foi o único com um discurso coerente e correspondente àquilo que seria de esperar de um elemento da Igreja, o resto deixou muito a desejar! Ouvimos coisas como:

• Não se altera a lei que regulamenta o acesso ao casamento civil mas alteram-se todas as outras que são discriminatórias como a lei do arrendamento, a lei do direito sucessório e por aí fora! Mas que trabalheira!
• As pessoas homossexuais têm o direito de se casarem desde que o façam com uma pessoa de sexo diferente! Ai…
• Os bissexuais são pessoas perigosas porque querem casar com um homem e uma mulher ao mesmo tempo! Ai…
• Um tipo sinistro da União das Famílias que dizia que os casais de homossexuais não são "normais", seguido de justíssimos protestos vindos do outro lado.
• Esse mesmo tipo sinistro a dizer que não há estudo nenhum que comprove que uma criança pode ser feliz se for adoptada por um casal de pessoas do mesmo sexo (não "normal" portanto). Ai… ao que Fernanda Câncio referiu e bem que já há muitas crianças adoptadas por pessoas homossexuais porque a lei portuguesa permite a adopção de crianças por pessoas singulares sem descriminação com base na orientação sexual, mas não permite a adopção a um casal de pessoas do mesmo sexo o que é um contra-senso no mínimo legal!
• Um outro tipo que se insurgia contra Daniel Oliveira e furiosamente gesticulava dizendo que não lhe admitia que este o chamasse de homofóbico, quando Daniel Oliveira referia, e bem, que as posições tomadas pelo dito eram de facto homofóbicas, porque intolerantes e discriminatórias.

De referir ainda aquilo que Isabel Moreira contestou ao Padre Vaz Pinto quando este tentou estabelecer uma analogia entre o casamento de pessoas do mesmo sexo e o casamento entre pais e filhos (incestuoso). Em termos jurídicos o casamento incestuoso é anulável com base num "erro" cometido por quem o contrai. Em termos jurídicos ao ser proibido o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a lei está a dizer que o próprio homossexual é um erro ao não lhe permitir sequer o acesso a esse direito… por outras palavras a lei que regulamenta o acesso ao casamento civil é uma lei homofóbica e discriminatória.

Falaram muito bem todos os que deram a cara a favor do acesso ao casamento civil por pessoas do mesmo sexo. Frisaram inúmeras vezes que era uma questão de igualdade, de respeito, de dignidade pela pessoa humana em geral e pelos homossexuais em particular. Que esta minúscula alteração da lei irá permitir regulamentar juridicamente uma série de relações que já existem e que continuarão a existir, passando ou não passando a alteração proposta. Que esta alteração não retira direitos a ninguém, não prejudica ninguém, não humilha nem descrimina ninguém, pelo contrário, é uma medida a favor duma maior abrangência em termos sociais. Não põe em causa a continuidade da espécie, não põe em causa a orientação sexual de ninguém e muito menos duma maioria que é e continuará a ser heterossexual.

Tirando os argumentos pouco claros e baseados em crenças religiosas, fiquei sem perceber porque incomoda tanta gente que uma pessoa homossexual tenha o direito de casar com a pessoa que ama! :(

Descoberta de última hora!


Acabei de assistir ao aceso debate na RTP1, "Prós e contras" sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Aceito, em termos religiosos e pessoais, alguns dos argumentos do contra, embora não concorde. Outros porém, são inaceitáveis. Os preconceitos e homofobia ficaram bem patentes em algumas palavras, vincados de tal forma nas suas personalidades que é notório que os próprios autores estão empedernidos de intolerância e azedume.

É por isso que o ponto alto deste programa foi, para mim, quase no final quando a jurista defensora dos prós interpelou a plateia do não, dizendo que um dia aquelas jovens famílias que ali estavam teriam filhos homossexuais. A reacção foi inesperada até para mim, que estou familiarizada com estes debates. O repúdio a essa possibilidade ficou expressa, a certeza dessa impossibilidade também. Terão tomado uma vacina? Podiam ter avisado os meus pais... e já agora tinham uma boa táctica para nem sequer ser necessário este debate: é só vacinarem-se! E pronto, já está, acabaram-se os pervertidos e anormais.

Ahh meu caro Milk, como tinhas razão! Se em cada família, em cada grupo de amigos, em cada empresa soubessem quantos somos, que somos nós também responsáveis pela sociedade que todos construimos, para o bem e para o mal, e que somos só mais uns deles, e que não nos importamos.

Tristes exemplos!

sexta-feira, fevereiro 13


(Via caccaocino)

Enquanto na Califórnia os 18000 casais de homossexuais que conseguiram casar antes da passagem da infame Proposition 8 continuam a lutar para que os seus casamentos não sejam dissolvidos, em Portugal continua-se a achincalhar uma luta de uma comunidade que muitas vezes não consegue ser levada a sério.

Continua-se a associar a homossexualidade á bestialidade e à pedofilia, sem o mínimo respeito por aqueles que lutam pelo reconhecimento e pela dignidade das suas relações.

É pena que este senhor ache que os homossexuais são todos suburbanos que trabalham em cabeleireiros. Por isso é tão importante o apelo a que tod@s se assumam, que mostrem quem verdadeiramente são. Professores, médicos, advogados, engenheiros, gestores, actores, e até governantes, os homossexuais que um dia levantarem a sua voz contra este tipo de achincalhamento irão mostrar ao resto da sociedade que afinal já conhecem muitos homossexuais que admiram, respeitam e de quem gostam!

Só espero que este senhor e todos os outros que gozam com a homossexualidade desta forma se arrependam e se envergonhem das barbaridades que um dia pensaram e escreveram sobre aqueles que são também seus amigos, colegas, irmãos e familiares.

Isto sim é grave!

quarta-feira, fevereiro 11



Ok, a Igreja está apenas a cumprir o seu papel, não concordam com o casamento entre homossexuais e vão apelar ao voto contra os partidos que o defendam (nomeadamente o PS).

Agora o que me espanta é que não ouvi nenhum bispo português pronunciar-se sobre a anulação da excomunhão dos bispos que negam que o holocausto existiu. Este assunto causou indignação a nível mundial porque o holocausto não está em causa nem nunca esteve e a Igreja indignou-se com esses horríveis eventos tanto como qualquer outro ser humano se indignaria!

Este papa, afastando-se claramente da humanidade que caracterizava o chefe da Igreja anterior, duma penada resolve anular a excomunhão desses bispos e ponto final. Autocrático, autista, imperdoável!

A Igreja regride... ao apoiar bispos claramente xenóbofos que exprimem as suas opiniões contra tudo o que o resto do mundo pensa. A seguir virão ataques contra mulheres e inevitavelmente contra homossexuais. Não nos esqueçamos que no holocausto não morreram só judeus! Morreram também milhares de homossexuais!

Se no seio da Igreja foram reabilitados bispos que concordam (ignorando) as barbaridades que foram cometidas pelo III Reich, para onde caminham os supostos ilumidados de Deus?... Não auguro nada de bom deste papa "negro" que já conseguiu destruir um legado tão importante e tão arduamente conseguido ao longo dos anos por esse outro saudoso papa "branco". Não sou católica mas gostava de João Paulo II, era um homem sensível, bondoso, cuidadosíssimo em relação a tudo o que fazia e dizia. Agora este Ratz... enfim!!

Mea culpa!

segunda-feira, fevereiro 9



Bem sei que houve um sentimento generalizado de desgosto em relação à reportagem da Sábado porque tentou vender a infidelidade sob um prisma favorável. Era o tal "branqueamento" de que falei no meu texto em baixo. Foi claramente uma manobra para vender e não me pareceu correcta a forma leviana como quiseram dar a conhecer uma realidade que não será assim tão glamourosa nem sensual como foi apresentada.

Mas também não foi correcto o meu post, fui leviana nos insultos que dirigi de forma generalizada e que atingiram pessoas que não os merecem porque já têm sofrimento quanto baste na sua vida. Por cada mulher casada, que se assume como heterossexual e que se envolve com outras mulheres com a conivência do marido, que até sabe, gosta e se excita com isso, haverá muitas mais que sofrem com o peso da culpa e da traição que sentem estar a cometer. Se calhar a revista Sábado devia ter-se focado mais nestas mulheres, que têm problemas de consciência, que sentem estar a fazer algo de errado mas não sabem como dar a volta à sua vida, que gostavam muito de se assumir mas por inúmeras razões sabem que não o podem fazer por tudo aquilo que está em jogo e podem vir a perder.

E o post que escrevi era na realidade um insulto personalizado... o meu texto devia ter rezado assim: "Conheço uma mulher casada, que se assume como heterossexual e com a qual eu me envolvi há uns anos atrás, que é uma cabra. E o marido dela é um parvo dum cornudo que acredita em todas as mentiras que ela lhe diz." E pronto, foi o meu momento "lavagem de roupa suja em público" pleno de insultos dirigidos a uma mulher muito egoísta que um dia quis o "melhor dos dois mundos" sem pensar nas consequências dos seus actos e sem ter a mínima intenção de se responsabilizar por eles. A reportagem da revista Sábado fez-me revisitar o meu passado e despoletou em mim uma raiva que já não sentia há algum tempo.

Mas, e como em tudo há sempre um mas, infelizmente os meus insultos atingiram outras pessoas e a elas eu peço imensa desculpa. A diferença entre essas pessoas e as verdadeiras "cabras" é que elas sentem um enorme peso na consciência, sabem que estão a agir de forma errada e procuram desesperadamente uma saída para uma situação de duplicidade que as torna infelizes. Solidarizo-me com elas, e mais ainda me enerva esta sociedade de hipocrisia que tenta vender a parte boa das relações extraconjugais sem se focar e aprofundar mais a parte má. Há muitas mulheres a sofrer por esse país fora e eu, feito elefante em loja de cristais, ainda as magoei mais... peço mil desculpas a essas mulheres e desejo-lhes muita sorte e coragem para tentarem encontrar o seu caminho.

Desculpe, afinal sim...

sexta-feira, fevereiro 6


- Está lá? É do ACP. Queria pedir desculpa. Afinal a nossa colaboradora cometeu um grave erro. Para além de distraída é incompetente, tem má vontade e a culpa é toda dela. Nós sempre quisemos cumprir a lei.
- Eu perguntei se ela estava ao corrente da lei... Até insisti para que me passasse ao responsável.
- Bem sei. Isso já está a ser tratado. A senhora tem toda a razão. Peço-lhe desculpa, em meu nome pessoal e do ACP. Lá por ser lésbica pode pagar o seguro e já agora, as cotas!!

Piadas à parte, obtive vários pedidos de desculpa, não só do ACP como da seguradora, mediadora e parceira do clube. Resta-me reflectir sobre quem não reclama, sobre quem se deixa levar pelo caminho que menos trabalho dá e sobre uma questão que me acompanha há muito: tomar, ou não, nas nossas mãos as lutas que a nós dizem respeito. Não é justo para os que dão a cara, para os que se passeiam nas espampanantes marchas, pelos que vão à Assembleia da Républica e pelos que dão beijos na rua, não obterem uma pequena ajuda da maioria de nós. Devemos fazer-lhes justiça, ajudá-los a pôr em prática o que já foi conseguido por eles.

PS: No dia em que publiquei o post sobre o ACP, antes mesmo de o fazer, escrevi um e-mail a reclamar. Respondo assim aos nossos leitores que o sugeriram e muito bem. Não é da minha natureza passarem-me com o carro por cima na passadeira e deixar-me ficar... a menos que fique inconsciente.


O branqueamento da traição



Não sei a quem passou pela cabeça escrever um artigo sobre mulheres casadas que têm casos com outras mulheres. Cheira-me que terá sido um homem pela quantidade de fotografias de mulheres a beijarem-se que aparecem nas páginas da revista Sábado desta semana. Será que precisam assim tanto de aumentar as vendas da revista? Será que este assunto merece assim tanto destaque?

Mulheres que se envolvem com outras mulheres sempre existiram, sendo essas situações mais ou menos bem toleradas consoante as morais vigentes da época. Hoje em dia e provavelmente fortemente impulsionadas pela gigantesca indústria de pornografia essas situações tornaram-se corriqueiras, saltaram dos filmes XXX para filmes e telenovelas que passam em horários em que sabemos que as audiências são maioritariamente constituídas por crianças e adolescentes. Estranhamente não vejo a Igreja a insurgir-se contra a quantidade de barbaridades ditas e mostradas em nome da "abertura sexual" na nossa televisão hoje em dia.

Uma coisa é certa. A mim sempre me disseram para não me meter com mulheres casadas e eu sempre achei que eram de carácter moral duvidoso as mulheres casadas que se envolviam com outras mulheres. Esta reportagem serviu para reforçar ainda mais essa minha convicção.

As mulheres que se dizem heterossexuais, casadas (e algumas inclusive afirmam-se de católicas!) que se envolvem sexualmente com outras mulheres são umas cabras. E tentam branquear a infidelidade que cometem com a justificação inverosímil que os maridos até sabem, gostam, querem ver e participar! Os maridos dessas mulheres, esses que sabem, gostam e querem participar, para além de serem cornudos são uns parvos e uns tristes que não percebem que qualquer traição ou infidelidade é uma tremenda falta de respeito! Essas mulheres que os enganam, que lhes mentem e que os convencem que é tudo muito diferente e que só o fazem para os excitar ainda mais são umas cabras manipuladoras que possivelmente só continuam casadas pelo conforto financeiro que lhes advém dessa situação. E nesse caso para além de cabras estão ao nível das prostitutas de vão de escada!

E para além de tudo o resto essas mulheres estão também a prejudicar a luta pelos direitos dos homossexuais, nomeadamente das lésbicas. Elas fazem questão de sublinhar que apesar de gostarem de se envolver sexualmente com outras mulheres, são heterossexuais e não lésbicas. Consideram as relações entre mulheres como algo menor, talvez apenas "para aquecer", e logo não concebem que essas relações possam estar ao nível das relações entre homens e mulheres e nunca lutarão pelo nosso direito de acesso ao casamento civil, provavelmente muito pelo contrário! A sua postura é tremendamente machista, chegando a raiar a homofobia. Mas também mais não seria de esperar de cabras que põem os cornos aos maridos sem qualquer pejo nem sentimento de culpa.

A única nota relevante numa reportagem carregada de lugares comuns e da perpetuação de mitos sobre a sexualidade das mulheres, e admito que seja uma coscuvilhice de baixo nível, foi confirmar as minhas suspeitas que a actriz Alexandra Lencastre será lésbica. Resta saber se é das simples ou das com gelo...

A importância de Harvey Milk

quarta-feira, fevereiro 4



Fui ver o filme sobre este ilustre político maioritariamente desconhecido entre nós e tão bem representado por Sean Penn que merece sem dúvida o Oscar de melhor actor, não por representar bem o papel de um gay mas por representar duma forma tão convincente o papel de um activista político que assume a sua homossexualidade com uma frontalidade até então desconhecida. Recorde-se que nos anos 70 a homossexualidade nos Estados Unidos ainda era punida com pena de prisão. Não sei (mas confesso que gostaria de saber) o que acontecia aos homossexuais que se assumiam em Portugal antes da revolução de 25 de Abril de 1974. Acredito que seriam presos pela PIDE e provavelmente torturados até "desistirem dessas tendências" ou mesmo até à morte.

Este é o peso histórico que os activistas LGBT carregam nos seus ombros. Estes são os fantasmas do passado que nos fazem recordar que há alguns anos atrás nós não podíamos falar livremente sobre os nossos sentimentos e relações. A humilhação ocupava o lugar do orgulho, o menosprezo o lugar da dignidade.

Nada resume melhor Harvey Milk do que o discurso da esperança que ele proferiu em São Francisco em 1978, pouco antes de ser assassinado. Nada resume melhor Harvey Milk do que a profunda convicção que toda a gente conhece um gay ou uma lésbica, mesmo não sabendo quem são. Podem ser os nossos amigos, os nossos vizinhos, os nossos pais, os nossos filhos, os nossos colegas de trabalho e até os nossos políticos!

Mas os milhares de gays e lésbicas que existem à nossa volta só serão reconhecidos no dia em que eles próprios tiverem a força e a coragem para assumir aquilo que são. O maior grito de guerra de Harvey Milk, para além do grito de esperança que tantas vezes exclamou, foi exortar todos os gays e lésbicas a saírem do "armário", a assumirem aquilo que são sem medo e sem vergonha!

"The blacks did not win their rights by sitting quietly in the back of the bus. They got off! Gay people, we will not win our rights by staying quietly in our closets... We are coming out! We are coming out to fight the lies, the myths, the distortions! We are coming out to tell the truth about gays!" – Harvey Milk

Trad: "Os negros não ganharam os seus direitos mantendo-se sentados na traseira do autocarro. Eles levantaram-se e saíram! Homossexuais, nós não ganharemos os nossos direitos se ficarmos quietos dentro dos nossos armários... nós vamos sair! Nós vamos sair para lutar contra as mentiras, os mitos, as distorções! Nós vamos sair para dizer a verdade sobre gays!"

E é só desta forma, dando os gays e as lésbicas a conhecer ao mundo que os rodeia, que um dia esse mundo irá reconhecer que nós somos iguais aquilo que sempre fomos, porque o mundo já nos conhecia antes de nos assumirmos como gays e lésbicas. E já gostavam de nós antes, e já tinham orgulho em nós antes!

Se há alguma coisa que tenho aprendido nestes últimos tempos, nomeadamente desde que comecei a partilhar experiências através da net, é que o caminho a percorrer até termos os nossos direitos reconhecidos na sua totalidade é muito longo sim, mas há tantos e tantas que já o trilharam antes, e brilharam, e foram bem sucedidos, e foram reconhecidos como melhores do que os seus pares, apesar da sua homossexualidade! Um dia a orientação sexual dum indivíduo será tão indiferente como a cor da sua pele ou o seu género. Esse dia ainda está longe mas eu tenho muita esperança e espero que este cantinho seja um local que transmita esperança a pessoas que por aqui passam em momentos cruciais das suas vidas. Se assim for, se eu souber que transmitimos esperança a pelo menos uma pessoa homossexual que nos leu, já valeu a pena e já sentirei que a nossa luta pelos nossos direitos não irá esmorecer nunca!

Nesses casos...

segunda-feira, fevereiro 2




O Automóvel Clube de Portugal discrimina os homossexuais. (Ponto final parágrafo.)

O ACP tem uma campanha de seguros pessoais (que eu saiba é só uma) que dá vantagens, entre outras, para casais em união de facto. Uma senhora simpática e empenhada em vender telefonou-me e informou-me:

-Fantástico! Enviem lá isso então.
-Ahhhh não, mas para esses casos não.
-Porquê?
-É só para pessoas de sexo diferente!
-Mas isso não está de acordo com a lei...
-Pois, mas não, nesses casos não.

Já estou mesmo a ver, qualquer dia telefono com o carro empanado e se disser que sou lésbica:

- Ahh não, nesses casos não. Os gays e as lésbicas nem deviam andar de carro... nem de transportes. Se calhar o melhor era fazer uma ruazinha só p'ra eles!

E anda a gente a dar dinheiro a estes palhaços. Haja paciência...

A importância de Johanna Sigurdardottir

sexta-feira, janeiro 30



Pode ser uma política competentíssima, estou certa que seguramente o será, mas ser lésbica assumida é já motivo de orgulho para tantas mulheres por esse mundo fora e nós não somos excepção. Há por aí quem diga que esse facto não tem importância nenhuma, que ninguém quer saber da vida sexual de ninguém mas considerando que a senhora é uma mulher e lésbica assumida, em muitos países do mundo (Portugal incluído) nunca teria sequer uma hipótese de chegar a membro do parlamento, quanto mais a chefe de governo!

Já sabemos que Portugal tem uma das representações femininas mais baixas da Europa na assembleia. E quanto a homossexuais assumidos? Penso que a representação será mesmo de 0%! Considerando que os homossexuais representam cerca de 10% da população, quem está lá para defender os nossos direitos? Não assumidos dizem as más-línguas que haverá uns poucos (começando pelo Paulo Portas), mas quem será o primeiro a levantar-se e a procurar activamente defender os direitos duma minoria que tem sido humilhada e reprimida ao longo dos séculos?

Em que raio de armário estará o nosso Harvey Milk escondido??

A idade da inocência

quarta-feira, janeiro 28



Após o anúncio já esperado que o casamento homossexual voltará a estar na agenda política do partido que constituirá o próximo governo (há que ter esperança!), sei que iremos voltar ao velho tema da "opção" versus "orientação" sexual e como tal deixo já aqui a minha contribuição.

Tenho pena que os outros não saibam o que é nascer-se assim, quem é homem não sabe o que é ser mulher, quem é mulher não sabe o que é ser homem e quem é heterossexual não sabe o que é ser homossexual. Um dia um rapaz vê uma menina e aquilo mexe com ele e a partir daí identifica-se com a vasta maioria sem mais quês nem porquês.

Um dia uma menina vê outra menina, alunas ainda da primária num tempo longínquo em que o sexo era um tema tabu, e aquilo mexe com ela. Nem dez anos ainda feitos e já sabe que a Teté ilumina os seus dias, tal como o sol num dia quente de verão. Não vê televisão, nem sabe ainda o que isso é, as leituras resumem-se àquilo que os professores mandam ler, sabe por observação que os casais se compõem de um pai e de uma mãe e no entanto ela tem a mente fixada na Teté. Acha os rapazes feios, maus e sujos. Não sabem falar, cospem-lhe para cima e andam sempre aos pontapés e aos murros. Com a Teté é tudo diferente. Ela sorri-lhe duma forma tão carinhosa e ternurenta. Carente de mãe, já falecida, a menina aprecia essa parca bondade que lhe é dispensada e declara Teté a melhor pessoa do mundo, para além da mais bonita e simpática.

Procura o contacto físico com ela, nada parece real até ser tocado e sentido na pele. As mãos que se dão, os olhares que se trocam, os segredos mais íntimos sussurrados ao ouvido, é o começo duma relação diferente de todas as outras, sem nome ainda porque uma criança que nem dez anos tem não consegue definir algo tão complexo como a atracção sexual entre dois seres humanos.

Os dias passam sem pressas, aparentemente todos iguais mas sempre diferentes porque partilhados com a Teté e só quem vive uma tamanha amizade sabe a relevância que os pequenos gestos e olhares podem ter na vida duma criança. Um dia Teté diz-lhe que quer dar-lhe um beijo, parece uma coisa tão banal, afinal todos os dias se beijam quando se encontram e ao final do dia quando se despedem uma da outra. Mas não, o beijo que ela queria não era desses inocentes em que os seus lábios se encostam às suas bochechas redondas e afogueadas. Teté queria beijá-la na boca como já tinha visto adultos fazerem entre si. E esse pedido, esse desejo vindo duma sexualidade prestes a despertar, consumiu-a dias e dias seguidos. Se por um lado ela também queria beijar Teté dessa forma por outro tinha medo de estar a entrar num quarto proibido, até porque os beijos na boca não eram algo usual de se ver naquele tempo. Não sabendo ainda os caminhos que se abririam para si temia o desconhecido. Nem lhe passava pela cabeça que os tormentos seriam iguais se tivesse sido o Pedro a pedir-lhe um beijo em vez da Teté. Era o beijo em si que a inquietava, e não o facto da Teté ser uma menina tal como ela.

Passado uma semana esconderam-se na casa de banho para faltarem à aula de português e fugiram para o recreio quando já os outros meninos se encontravam a conjugar verbos sem saber o impacto que aquele momento teria na vida daquelas duas meninas. Foi ali mesmo, por baixo do parapeito da sala de aula de onde escorregavam pretéritos imperfeitos e mais que perfeitos, que ela e Teté se aninharam e muito ao de leve deixaram as suas bocas tocarem-se durante uns segundos que lhes pareceram uma eternidade. Como é que um simples gesto, um toque tão inocente, marca e define para sempre a vida de duas crianças que se descobrem homossexuais sem saberem ainda as dificuldades e sacrifícios que essa "escolha" lhes irá acarretar ao longo da vida?

Não "escolhemos" ser homossexuais, podemos é escolher não viver essa nossa característica na sua plenitude. Podemos escolher casar para que ninguém desconfie dos olhares lascivos que deitamos às irmãs dos nossos namorados. Podemos escolher ser mães porque temos essa vontade e esse direito. Mas bem lá no fundo e independentemente de quem esteja a dormir connosco na cama, não podemos apagar da memória nem dos sonhos essa tarde fresca de primavera em que demos o nosso primeiro beijo.

Devia ser simples para qualquer outro ser humano compreender que isto não se explica com meros "porque é assim que deve ser". Nós entendemos bem esse "é assim que deve ser", mas isso não ajuda o que sentimos em relação às pessoas com as quais nos cruzamos ao longo da vida. Ninguém sabe porque é homossexual, ninguém consegue explicar racionalmente aquilo que sente. Sei que a Igreja irá tentar pôr a homossexualidade ao mesmo nível da pedofilia e da bestialidade e que isso irá entristecer e humilhar milhares de pessoas que se esforçam todos os dias para serem seres humanos dignos, respeitadores e respeitados no seio da sua comunidade.

As batalhas que ainda nos faltam travar são imensas! Só espero que tod@s tenham capacidade e coragem para enfrentar as tantas barreiras que ainda nos faltam transpor até sermos vistos e tratados como membros plenos das sociedades que nos acolhem. E espero tanto que um dia toda a humanidade compreenda que ninguém "escolhe" ser homossexual, é algo que está tão enraizado em nós que nem ameaças, insultos, ou tratamentos de choque conseguiram erradicar. Não desistam nunca de lutar pela vossa felicidade, pelo vosso direito de viverem uma vida ao lado da pessoa que amam, estou a torcer por tod@s nós!

Afinal, lésbica simples ou com... gelo?

sexta-feira, janeiro 16

Há coisas que não entendo. Uma delas é esta velha discussão de que o lesbian chic é para gajos e foi uma invenção extraterreste. Que uma verdadeira lésbica tem que ser camião, sapatão, butch e por aí fora, porque as outras são só para enganar. A mim tanto me faz. Verdade!
Irrita-me discutir sobre camisas xadrez e cabelos curtos, sobre o direito ao seu uso e se está na moda. O resto quanto a mim é que conta. Para cada uma contará de maneira diferente. O que quero dizer é que, importavam-se lá as gajas se a Angelina (para generalizar) aparecesse para aí de camisão largo e de ténis. Ouço em demasiados sítios que esta coisa de aparecerem sempre miúdas p'ro bonitinho é redutor do mundo lésbico real, que o L word é uma fantasia (é uma série, claro que é), e por outro lado, deviamos ser todas assim.
Não, as lésbicas não têm que ser feias e se forem, qual é o problema? Gente feia é o que mais para aí há. Mas quem é que não gosta de ver uma miúda gira? Fazem o favor de me explicar!

Monte de vampiros!

quarta-feira, janeiro 14



Ah não, o que o cardeal patriarca queria dizer era que as mulheres devem pensar duas vezes antes de casarem com um homem, um qualquer, católico, muçulmano, seja de que raça ou religião for, é sempre um monte de sarilhos! Porque eles bebem, e mentem e enganam-nas com o primeiro rabo de saia que lhes apareça à frente, e depois batem-lhes por motivos tão irrisórios como a frustração pela demora em ser servidos ou a derrota dum qualquer clube de futebol. Era isso que o senhor queria dizer, seguramente… até porque ele não é xenófobo, nem sexista, nem homofóbico, nem nada disso… é um senhor iluminado que só pensa no bem-estar das mulheres como um todo!

Considerações em jeito de comentário

sexta-feira, janeiro 2



Depois de um Natal bem quente passado na cama a duas (cheias de febre) mas nem por isso lá muito sensual, hoje já me encontro mais compostinha graças à minha querida mulher que mesmo estando também ela doente tomou conta de mim melhor do que qualquer mãe ou enfermeira!

Em relação à polémica que despertou o texto que publiquei nas vésperas de Natal, sobre se devia ou não misturar sexo com a noite santa aproveito para esclarecer que de algum modo entendi os comentários da Teresa como sendo pouco simpáticos, pelo contrário. Ela expressou o seu ponto de vista, está no direito de o fazer e eu por aceitar comentários aos textos que publico tenho o dever de os considerar.

Uma pessoa que escreve num sítio público sujeita-se a críticas, é normal, é saudável, para mim é até positivo especialmente porque temas como o erotismo lésbico não são algo que debato frequentemente com os meus conhecimentos, maioritariamente porque à partida não gosto de chocar as pessoas, prefiro passar despercebida e como tal aqui pareceu-me um bom sítio por onde destilar uma parte de mim que me é importante. Os comentários positivos ajudam-me a sentir-me parte de algo que é maior do que eu, chamemos-lhe uma comunidade, embora a homossexualidade por si só não seja garante de nenhum outro tipo de compatibilidade entre as pessoas, neste caso entre mulheres.

Os comentários menos positivos, desde que sejam formulados duma forma simpática, como eu achei que fez a Teresa, obrigam-me a reflectir sobre as razões porque decido falar ou ser duma certa forma e neste caso em específico fizeram-me pensar sobre os motivos porque um dia resolvi que não era compatível para mim ser lésbica e católica.

Em parte tem a ver com o sexo também. A Igreja católica aprova e até incentiva uma forma de relação sexual, entre um homem e uma mulher com o fim único da procriação. É legítimo que o faça, eu própria considero que esse acto tem o seu quê de divino pois nesse momento de concepção de uma nova vida ambos, homem e mulher, se poderão sentir mais perto de Deus. Não quer dizer que aconteça, há sexo e sexo e há muitas crianças infelizmente concebidas de forma indesejada. Mas a natureza criativa presente no acto sexual entre um homem e uma mulher está sempre lá e é uma força muito potente, isso não se pode negar. Mesmo em relação à concepção de Jesus, e mesmo que aceitemos que a Virgem Maria tenha sido fecundada por um espírito, em vez de um qualquer homem, essa força criativa estava lá, presente nesse momento em que uma nova vida foi concebida. O acto do nascimento de Jesus não pode estar arredado desse acto que foi o da sua concepção, e como tal acho que encontrei alguma legitimidade em misturar o sexo com a noite de Natal.

Mas uma vez que a Igreja condena qualquer outro tipo de relacionamento sexual, eu não poderia manter-me católica porque isso seria achar que o tipo de relacionamento sexual que pratico é menor do que o relacionamento sexual entre um homem e uma mulher, porque é estéril, não contém potencial criativo. Ora eu não acho isso, para mim qualquer tipo de relacionamento sexual entre duas pessoas que se amam é muito válido, valioso até porque o ser humano se complementa e completa através do amor que sente por outra pessoa. A nossa forma de amar é diferente, sem dúvida, mas recuso-me a aceitar que seja menos válida ou menor! Aliás vou mais além e recuso-me a reconhecer autoridade moral aos padres para falarem sobre algo que desconhecem por completo. Nenhum homem, por mais espiritualmente iluminado que seja, pode falar sobre o que é o amor entre duas mulheres. Nunca saberá do que fala, não tem nem ideia do potencial afectivo, emocional e energético que existe, que se partilha, que se dá, que se recebe mesmo não estando ali presente a força criativa!

Mesmo assim não sou descrente, acredito numa força superior e incompreensível, algo que por vezes apenas pressentimos, uma energia infinita da qual todos comungamos um pouco. Poderia chamar a isso deus, embora não o conceba de todo como o Deus machista, implacável e castigador dos católicos. Aos olhos da Igreja eu sofro de um duplo estigma, por ser mulher e por ser lésbica. Não me esforcei nem me esforçarei por pertencer a algo cujos princípios morais me rebaixam e arrasam, nem carregarei o fardo de culpa milenar que o clero atira sobre os ombros de todas as mulheres desde que Eva supostamente seduziu Adão e o levou a com ela consumar o pecado original.

Agradeço a todos os comentários, mesmo aqueles que me fizeram pensar em tudo o que aqui tentei transmitir, e quero deixar um agradecimento especial à Alice, que mais uma vez me cumprimentou pelo uso dum português "cuidado". É verdade que naquilo que escrevo procuro a busca duma certa perfeição poética (mais do que gramatical) em jeito de homenagem à minha língua materna, que adoro e venero duma forma quase surreal. A linguagem escrita é para mim o único instrumento que tenho para exprimir tudo aquilo que sinto. Escrever é a minha única arte, esgrimir as palavras, atirá-las ao ar e escolher as que melhor cabem nas minhas construções é tanto um passatempo como uma obra do destino. E quem escreve por gosto não cansa.

Desejo a todas um excelente ano de 2009, cheio de saúde e amor. E inspiração também, especialmente às outras autoras deste blog, que se inspirem e que venham aqui partilhar as suas experiências para que neste ano que agora começa este blog volte a ganhar vida!

 

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