A história de Ana e de Joana

quinta-feira, junho 25



Hoje não me deixaste dormir Joana. De cada vez que fechava os olhos via os teus olhos de anjo, a tua cara sofrida traçada por socalcos de desconsolo e incompreensão. Sempre te levantaste contra as injustiças do mundo, sempre pensaste mais nos outros do que em ti e hoje presto-te singela homenagem querida Joana. Porque este mundo ainda não está preparado para as diferenças intrínsecas que existem dentro de cada um de nós.


A mãe de Joana fechou os olhos logo após a exclamação da enfermeira "é um menino!" e nunca mais os abriu. Durante toda a gravidez tinha sonhado com a sua menina semente que sentia crescer pujante dentro da sua barriga. Muitos anos depois da sua morte pós-parto ainda se comentava que tinha sido o desgosto daquela troca de género que a tinha matado, ou talvez até o desgosto que tinha sentido por pressentir que aquela sua filha nunca poderia vir a ter uma vida fácil e despreocupada. O facto é que Joana se sentia culpada pela morte da mãe que não conhecera. Tudo na vida dela emanava desse “engano” primordial cometido sabe-se lá por quem nem porquê. Tal como sua mãe, Joana estava convencida que deveria ter nascido menina e achou que um pequeníssimo adereço a mais entre as suas pernas não deveria ter a mínima influência naquilo que era a sua essência verdadeira.

A somar à morte da mãe, o pai abandonou-a por achar que aquele filho frágil e doente não iria sobreviver aos anos da infância e entregou-a aos cuidados da avó, que se encarregou de providenciar a educação que sentia necessária à neta, fosse ela menino ou menina. Se Joana sobreviveu foi graças a essa avó, que de tudo fez para que ela se mantivesse à tona num mundo lamaçal pestilento de agressividade e egoísmo.

Na escola Joana brincava com as meninas e andava sempre com elas excepto nos momentos em que precisavam de usar a casa de banho. Havia sempre um adulto que se lhe punha no caminho e lhe dizia "Então?? Aí é a casa de banho das meninas, tu não podes entrar aí, tu tens pilinha!" E lá se lembrava que aquele minúsculo adereço lhe impunha rigorosas regras de segregação que todo o resto do seu ser não compreendia.

Na aldeia e na escola habituaram-se a chamá-la de Ju, já que ela não respondia quando a tratavam pelo nome de baptismo. João ou Joana, tantas diferenças contidas, escondidas em tão poucas letrinhas. E um preço tão alto a pagar por querer um "n" ali antes do "a" no final. Joana nunca quis o papel de vítima, mas era diferente para todos os que a víamos sempre esmurrada, negra de cotoveladas e pontapés que os miúdos e algumas miúdas se esmeravam em lhe dar. "Que se passa Ju? Fizeram-te mal?" perguntei-lhe muitas vezes. E ela respondia "nada vizinha, não é nada, isto passa!"

Ana era uma das poucas meninas que brincavam com Joana. Para Ana não havia dúvidas, Joana era mesmo uma menina como ela, mesmo que soubessem as duas da existência do tal adereço entre as pernas. Foi Ana quem primeiro começou a tratar Ju por Joana e Joana nunca mais reconheceu nenhum outro nome senão aquele apesar de todos os anos que passaram até que pudesse ser seu por direito.

Há medida que o tempo passava as meninas tornaram-se mulheres e os meninos homens e Joana ficou ali no meio, parada no tempo, sabendo aquilo que era mas não conseguindo encontrar aceitação no seio daquela gente para aquilo que queria ser. Quando fez 16 anos a avó chamou-a e deu-lhe uma pequena caixa onde tinha guardado todo o dinheiro que tinha conseguido poupar desde o nascimento de Joana. Disse-lhe que o seu tempo tinha chegado ao fim, que não iria durar muito mais, e pediu a Joana para se ir embora dali. Tinha medo do que lhe pudesse acontecer assim que ela não estivesse presente para lhe valer.

E assim Joana se foi daquela pequena aldeia onde vivíamos. Partiu para a cidade e mais tarde soubemos que tinha viajado para o Brasil. Só Ana lhe sentiu a falta penso... pelo menos só Ana me disse que sentia a falta daquela menina tão carinhosa, tão sensível, tão prestável e amiga de todos.

Um dia passados muitos anos Joana voltou à aldeia mas ninguém a reconheceu. Veio ter comigo e disse-me que se lembrava tão bem de mim, que me preocupara sempre por ela. Demorei algum tempo a rever naquela bela mulher o menino enfezado que dali tinha partido. Explicou-me que no Brasil estavam muito à frente nas cirurgias de mudança de sexo que não sendo um caminho fácil era já possível e com resultados muito positivos. Congratulei-a por ter perseverado nesse seu caminho, abracei-a mesmo, sentindo já um enorme carinho pela mulher feita em que Joana se tinha tornado.

Perguntou-me por Ana, queria revê-la e saber se ainda se lembraria dela. Eu sabia que Ana nunca tinha casado, que era uma miúda terrivelmente introspectiva, vivia consigo e para si e raros conheceriam o que lhe passava na alma. Lá lhe indiquei o caminho e vi-a abalar tão segura de si, tão cheia de confiança naquilo que agora tinha para dar. Querida Joana, como me arrependo hoje... devia ter pegado em ti e na Ana e devíamos ter saído logo dali!

Ana reconheceu Joana, logo assim que a viu vir. Havia qualquer coisa a ligar essas duas almas, tão transcendental como a vida e o amor. Teve com ela uma conversa que não tinha tido com mais ninguém, talvez estivesse à espera de Joana para descarregar esse fardo que a tinha trazido tão pesada e presa em si mesma. Ana explicou a Joana que um dia já depois dela ter abalado descobriu que não gostava de rapazes. Não suportava que lhe tocassem e muito menos que a beijassem! Dava-lhe asco o seu cheiro a terra, a suor e a álcool. De tal forma que da única vez que um rapaz a tinha tentado beijar Ana tinha soçobrado acometida por fortíssimas náuseas que assustaram o miúdo de tal forma que nunca mais nenhum rapaz quis tentar alguma coisa com ela. Mas Ana sabia que não era frígida, apesar de ser essa a sua fama na aldeia. Só ela sabia os sonhos que povoavam as noites longas e solitárias. Sonhos estranhos esses... feitos de mulheres que a agarravam e a beijavam e aí não havia lugar a pânico de espécie alguma. Ana confessou a Joana que sentia que gostava de mulheres, que seria esse o caminho, não por opção mas porque era esse o seu destino.

Mas sentia-se confusa em relação a Joana, porque a idade da razão lhe tinha trazido a consciência do problema da amiga. "Eu sempre te vi como menina, sempre te tratei como menina, sempre te quis, sempre gostei de ti assim..." E Joana explicou-lhe que nos anos volvidos tinha encetado esse longo e doloroso percurso físico que a tinha levado à transformação e reordenação de alguns dos seus órgãos exteriores e interiores. Ao longo dos anos, pouco a pouco, Joana viu emergir em si aquilo que a definia como mulher. E sentia-se mulher, mesmo face ao egoísmo dalgumas útero-fundamentalistas que lhe negavam o direito de se expressar enquanto mulher pelo simples facto de não puder vir a conceber. Sentia-se plena mesmo assim, mesmo sabendo que nunca poderia albergar vida em si. E para mim esse argumento era maldade pura... igual a alguém que insultasse um cego por não poder ver!

O caso é que Ana se sentiu atraída por Joana, já antes se tinha sentido, mas não assim, dessa forma tão bruta e latejante. Sentiu um desejo tão profundo por essa mulher, um sentimento tão desesperante de querer nela submergir para sempre. Joana confessou-lhe que também nunca a esquecera, que viera do outro lado do oceano para a procurar e para saber se ela era como as outras ou se a aceitaria tal como era. Estava até disposta a que fossem só amigas, desde que reatassem esse laço que as tinha unido em crianças.

Ana aceitou Joana, acolheu-a em si, abraçou-a, beijou-a, lambeu-a, comeu-a... e foi magnífico! Um momento único, feito de Amor, Desejo, Vontade e Sexo. Tudo junto por uma vez só, rodopiando, subindo, explodindo em estrelas de mil cores por cima duma, por cima doutra, renascendo as duas nesse momento, nesse dia em que se amaram e se juraram Amor eterno, para sempre!

Queria parar aqui a história, queria deixar as minhas memórias congelar neste preciso momento em que as duas mulheres se amaram como nunca e se sentiram rainhas do mundo e donas duma sabedoria divina. Mas logo após, pouco depois, não sei se foram poucos meses ou muitos, a história ficou manchada de sangue e tristeza. Porque os irmãos de Ana não se conformaram, porque espalharam pela aldeia que Joana era maluca, uma bruxa que tinha sido enviada pelo demónio para destruir a irmã e toda a aldeia. Porque as gentes do campo são crentes no básico e porque se unem em matilhas raivosas para nelas esgotarem as frustrações dos seus dias plenos de mesquinhez e futilidades. Porque o Amor e a Vida não significam nada para essas matilhas que se viram contra os seus! Porque Ana e Joana não previram que a Raiva fervia na cabeça e na pele dessas gentes e porque eu própria não as tirei daquele antro antes que os outros as encontrassem e as apedrejassem até à morte. Ana ainda viu Joana desfalecer com a força do embate da pedra bicuda na sua nuca. Ainda tentou estancar o sangue que jorrava do corpo da sua amada, mas sem dedos nem mãos suficientes para travar a vida esvaindo-se em soluços quentes e vermelhos. Ana ainda viu como a turba ululante se atirou a Joana e a retirou dos seus braços, pontapeando e socando o seu corpo moribundo. Depois foi a vez dela mas nesse momento já nada sentia, toda a sua dor se tinha ido juntamente com o ultimo suspiro da mulher que amava. As pedras embatiam-lhe na pele mas por dentro já se congratulava por sentir Joana cada vez mais perto, lá dentro dessa luz que a chamava, lá onde as duas poderiam finalmente viver o Amor que aqui lhes tinha sido negado.

Porque as minhas duas meninas ainda estão Vivas, tenho a certeza disso. Sinto a luz das suas estrelas, sinto-as por perto nestas noites quentes de Verão em que recordo os seus sorrisos e o brilho dos seus olhos nos breves momentos de felicidade que viveram juntas. Tenho pena que a sua Luz não brilhe mais intensamente, para dentro da cabeça daqueles que acham que tudo sabem, tudo podem, tudo mandam!

Dar a cara

segunda-feira, junho 22



Fomos à Marcha do Orgulho 2009 e apesar do calor que se fazia sentir em Lisboa, estava um ambiente que só visto!

Apareceu muita gente, muito mais do que eu estava à espera. E muitas mulheres, jovens, bonitas, assertivas e confiantes! Muitas vieram de fora de Lisboa, comentavam que em qualquer outro sítio não poderia ter sido assim. Menos mal, por algum lado temos que começar e se é em Lisboa que temos que mostrar a força dos nossos números, então que seja!

Estamos nos milhares, qualquer dia chegaremos ao milhão num movimento que já é imparável!

A esta não podemos faltar!

quarta-feira, junho 17



Tenho andado ausente por variadíssimos motivos pessoais e profissionais mas não posso deixar de apelar a tod@s que façam um esforço para estarem presentes na 10ª Marcha do Orgulho LGBT em Lisboa, já no próximo sábado. Acho, sinto, que o ano de 2008 foi um ano de viragem na causa dos direitos LGBT e acho, sinto, que daqui para a frente a nossa situação irá sem dúvida melhorar. Mas isso só se conseguirá à custa de tod@s os que se juntarem a nós na reivindicação dos nossos direitos. Tod@s, gays ou straights, teremos que demonstrar à sociedade civil que não pode continuar a menosprezar cerca de 10% (ou mais) dos seus membros. Queremos justiça e igualdade no tratamento das nossas situações conjugais e familiares! Queremos ser plenamente reconhecid@s como casais pela sociedade e pela lei!

Vamos à Marcha do Orgulho LGBT, por nós e por tod@s aqueles que ainda não têm coragem de dar a cara por medo e por vergonha!

Alcobaça Gay - Já no Sábado

quarta-feira, maio 6


A importância dEla

segunda-feira, março 30



Ela não é mãe delas, dessas crianças bonitas, saudáveis, brincalhonas e alegres que correm pelos corredores fora aos gritos sempre que pressentem a sua chegada. Agarram-se a ela, aos abraços e aos beijos e pulam de alegria sempre que ela lhes anuncia que lhes trouxe um “miminho”. Não sei se é dEla mas com a mãe nunca é assim... tudo o que a mãe lhes dá é recebido como se fosse esperado, sem grandes alaridos, como se fosse a sua obrigação dar-lhes aquilo que elas queriam receber.

Depois é com Ela que elas se atrapalham a quererem contar os seus dias, sempre diferentes, sempre plenos de acontecimentos emocionantes e emocionais que Ela acompanha com enorme atenção e expressividade. É uma ternura só vê-las dependuradas nos braços dEla, e Ela absorvendo cada momento como se fosse mãe dessas crianças, sem o ser, mas se calhar sendo um bocadinho, ou mesmo muito mais do que só isso.

Tudo o que Ela faz é bem feito, a comida é tão saborosa, os "miminhos" são tão fantásticos, a sua atenção tão deliciosa. Ela é uma presença constante nas suas vidas, é uma força tremenda, é alguém em quem elas confiam, de quem sentem saudades quando não está, com quem se ligaram tanto que Ela já aparece nos desenhos da “família”. “Esta sou eu, esta é a mana, e a mãe e tu estás aqui a voar por cima de nós, estás a ver?” uma figura com asas abertas sobre todas elas, abarcando, abraçando mãe e filhas dentro de um sentir que é maior do que tudo o resto, porque Ela é assim, dá tudo o que tem, partilha tudo o que sente e sente que aquela é a família que escolheu, que a escolheu a Ela também para se unirem numa unidade indivisível, inquebrável feita de muitos momentos, muitos minutos e horas e dias e noites de partilhas de angústias, de alegrias, de temores, de feridas, de dores e dissabores.

Tanto assim é que às vezes já nem querem a mãe, é com Ela que se abrem, é Ela que lhes dá colo e as consola e lhes diz que amanhã vai ser melhor, amanhã vai tudo passar e voltam a ser as crianças saudáveis, brincalhonas e alegres que lhe enchem a alma e o coração tanto que quase transborda de tudo, tanto... igual ao medo que tem de vir um dia a perder essa família que escolheu, que a escolheu a Ela. Porque nada do que ali se passa está previsto na lei, não está escrito que pode ser Ela a acompanhar essas crianças quando precisarem de um adulto responsável por elas, porque um dia alguém que não sabe que Ela escolheu aquela família, que a escolheu a Ela, pode vir dizer que Ela não pode estar ali porque não é suposto ser assim.

Por Ela, e todas as outras mães que o são no coração de tantas crianças, apesar de não o serem no papel, é preciso mudar e adaptar as leis sim, porque o mundo que está lá fora não sabe a intensidade do amor que cresce nos seios dessas famílias que sendo diferentes na composição não deixam de ser iguais no sentir e no querer às crianças que assim crescem e assim se educam por esse mundo fora. E muitos parabéns ao Público e a todos os orgãos de comunicação social que tiverem a coragem e a sensibilidade de abordarem este tema na perspectiva de resolução de um assunto que já é real para tantas famílias no nosso país.

Não sei o que pensar disto!

segunda-feira, março 9



Estive no Campo Pequeno na sexta-feira à noite para o que pessoalmente considerei ser um grande espectáculo de duas senhoras possuidoras de duas grandes vozes. Foi um espectáculo muito intimista, notava-se que Simone e Zélia estavam muito à vontade uma com a outra, mas daí a afirmar que elas trocaram vários beijos... "O tema de Luis Tati é terminado em dueto e em uníssono, culminando com o primeiro de muitos beijos na boca que o público foi testemunha."

Confesso que não vi nada disso, mas também não estava em posição de ver e será que isso foi o mais importante deste espectáculo?

Parece-me que esta notícia quis dar uma relevância a um tipo de relacionamento que pelo que sei Simone e Zélia não partilham, seja qual for a sua orientação sexual. E chateia-me que artistas do seu gabarito sejam alvo deste tipo de insinuações. As pessoas que foram ao Campo Pequeno foram para vê-las mas sobretudo para ouvi-las, porque são duas grandes artistas da MPB. A notícia cheira-me a coscuvilhice a roçar ao sensacionalismo e é pena que em Portugal tantas vezes a imprensa esteja mais interessada em saber quem dorme com quem ou quem beija quem do que naquilo que devia ter sido o seu foco de interesse, que foi a grandiosidade da junção daquelas duas vozes e almas cariocas para deleite de todos os que ali estavam para assistir a esse momento!

Facadinhas

quarta-feira, março 4


Frequentemente em debate, nas mais variadas conversas, é tema a traição: que todos traímos, que a monogamia é para poucos, que o pensamento já conta, que o beijo não conta, que quando é só cama não conta, que é a mentira a verdadeira traição... Enfim, na verdade os conceitos variam, os pesos e as medidas também. Os que não traem têm pouca credibilidade, parece que ninguém está livre dessa tentação.

Embora ache que generalizar é redutor e sem dar a minha opinião à partida, é corrente as relações acabarem porque uma das partes já tem uma nova candidata/o. Nas relações lésbicas esse parece ser o mote quando a coisa vai mal. A opinião é geral: malas aviadas para outra casa, com outra pessoa. Mas na malta mais jovem os conceitos são diferentes, leva-se mais tempo na "curte" e que nada é para sempre.

Estará o amor fora de moda? Amor para sempre, enquanto durar? Medo da solidão? Casamento por conveniência?

Não acredito!!

Familias

sexta-feira, fevereiro 27


Casa dos pais, jantar na mesa, TVI de fundo. Todas as vezes que lá vou passa uma notícia LGBT. Desta vez foi a gravidez daquele senhor.

Sobrinho - Epa, mas como é que um homem pode ter um filho?

Algum silêncio. Quem é que vai responder à criança? Espanto meu, existe alguém mais surpreendida do que eu? O meu pai foi o primeiro a abrir boca!

- Ele era uma mulher e fez uma operação porque quis ser homem, mas ficou lá dentro com a barriga para ter bebés.

- Isso é estranho, e teve que pôr uma pilinha? Para que é que quis ser homem?...

Como se não bastasse, a minha mãe vê uma imagem da esposa a amamentar e exclama:

- Mas como é que ela tem leite, se não foi ela que teve a criança?!!

Parecia uma daquelas publicidades em que uma velhota dizia que era uma vergonha porque iam dois gays de manga curta com aquele frio ou qualquer coisa do género... Se calhar, deviam ir aos "Prós e contras" falar com aqueles senhores da defesa da familia e afins.

Só sorri...

É um bocadinho triste isso é!

sexta-feira, fevereiro 20

Gosto desta mulher!

Apesar da brilhante argumentação (ide ver o que escreve a Fernanda Câncio no DN – via Rita Cacao), e de muitos acharem que sim, que temos toda a razão e que devíamos ter todos os direitos, quer a coisa se chame casamento ou outra coisa qualquer, depois temos uma larga facção da sociedade a quem este tema do casamento entre homossexuais já chateia. Porque dizem que se deveriam estar a discutir outros assuntos (não invalida que se discutam na mesma), porque acham que é uma manobra política de diversão e deixa cá entretermo-nos todos com discussões "fracturantes" e "filosóficas" até termos assuntos mais mediáticos.

Mas a culpa de tudo isto não é nossa, que eu saiba ninguém pediu a jornais, televisões, revistas, blogs e tudo por aí fora para dedicarem o seu tempo a escreverem a favor ou contra o casamento entre homossexuais. Por mim nem havia discussão, a lei passava, eu casava-me e ponto. Como em todos os temas éticos e sociais sobre o qual a Igreja tem uma posição imutável, esta questão nunca irá ser pacífica na sociedade até daqui a umas quantas gerações (como não foram certamente pacificas as alterações legislativas que atribuíram direitos às mulheres e às pessoas de raça negra, como refere e bem a Rita Cacao). E como a sociedade adora uma boa disputa, melhor ainda se houver humilhados e feridos, acho que já nem importa de que lado, cá vai de alimentar os ódios de estimação e dar tempo de antena a quem de outra forma nunca o teria.

Interessa-me alguma coisa aquilo que um qualquer burgesso que nem ler ou escrever sabe pensa sobre o facto de eu me querer casar com a mulher que eu amo? Interessa-me que ele ache que todos os homens homossexuais andam por aí disfarçados de mulheres e que todas as mulheres lésbicas se pareçam com camiões de 8 rodados e já agora com bigode e barba farfalhuda? Não, nada, zero!!

É uma questão de direitos fundamentais, nós somos uma minoria que nunca será aceite como igual pela facção conservadora da sociedade (que provavelmente ainda hoje não digere bem a igualdade de direitos entre homens e mulheres, entre brancos e pessoas de raça negra), e sendo Portugal um país laico, onde existe uma clara e intencional separação entre estado e Igreja, não devia sequer estar a haver discussão de espécie alguma!

Ai que nervos!!

terça-feira, fevereiro 17



Confesso que fiquei pregada à televisão e segui com enorme atenção tudo aquilo que foi dito ontem à noite no debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo no programa Prós e Contras da RTP1. O lado daqueles que são a favor estava muitíssimo bem representado por Miguel Vale de Almeida, a Dra. Isabel Moreira, o Dr. Pamplona Corte Real, Daniel Oliveira, Paulo Corte Real, uma brilhante Fernanda Câncio e uma plateia cheia de pessoas querendo ver a sua dignidade (ou a de amigos e familiares) reconhecida pelo estado. Os argumentos usados a favor do acesso ao casamento civil por pessoas do mesmo sexo são sobejamente conhecidos a começar pela nossa própria constituição que como referiu a Dra. Isabel Moreira proíbe a descriminação com base na orientação sexual do indivíduo. Se a constituição é aquilo que nos rege de mais básico e fundamental então a lei que regulamenta o acesso ao casamento civil é discriminatória porque impede uma pessoa homossexual de casar com uma pessoa do mesmo sexo.
Do lado daqueles que são contra ouvi argumentos de arrepiar, de pessoas que são supostamente cultas, inteligentes e deviam ser informadas sobre aquilo que se estava ali a discutir. Tirando o Padre António Vaz Pinto que foi o único com um discurso coerente e correspondente àquilo que seria de esperar de um elemento da Igreja, o resto deixou muito a desejar! Ouvimos coisas como:

• Não se altera a lei que regulamenta o acesso ao casamento civil mas alteram-se todas as outras que são discriminatórias como a lei do arrendamento, a lei do direito sucessório e por aí fora! Mas que trabalheira!
• As pessoas homossexuais têm o direito de se casarem desde que o façam com uma pessoa de sexo diferente! Ai…
• Os bissexuais são pessoas perigosas porque querem casar com um homem e uma mulher ao mesmo tempo! Ai…
• Um tipo sinistro da União das Famílias que dizia que os casais de homossexuais não são "normais", seguido de justíssimos protestos vindos do outro lado.
• Esse mesmo tipo sinistro a dizer que não há estudo nenhum que comprove que uma criança pode ser feliz se for adoptada por um casal de pessoas do mesmo sexo (não "normal" portanto). Ai… ao que Fernanda Câncio referiu e bem que já há muitas crianças adoptadas por pessoas homossexuais porque a lei portuguesa permite a adopção de crianças por pessoas singulares sem descriminação com base na orientação sexual, mas não permite a adopção a um casal de pessoas do mesmo sexo o que é um contra-senso no mínimo legal!
• Um outro tipo que se insurgia contra Daniel Oliveira e furiosamente gesticulava dizendo que não lhe admitia que este o chamasse de homofóbico, quando Daniel Oliveira referia, e bem, que as posições tomadas pelo dito eram de facto homofóbicas, porque intolerantes e discriminatórias.

De referir ainda aquilo que Isabel Moreira contestou ao Padre Vaz Pinto quando este tentou estabelecer uma analogia entre o casamento de pessoas do mesmo sexo e o casamento entre pais e filhos (incestuoso). Em termos jurídicos o casamento incestuoso é anulável com base num "erro" cometido por quem o contrai. Em termos jurídicos ao ser proibido o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a lei está a dizer que o próprio homossexual é um erro ao não lhe permitir sequer o acesso a esse direito… por outras palavras a lei que regulamenta o acesso ao casamento civil é uma lei homofóbica e discriminatória.

Falaram muito bem todos os que deram a cara a favor do acesso ao casamento civil por pessoas do mesmo sexo. Frisaram inúmeras vezes que era uma questão de igualdade, de respeito, de dignidade pela pessoa humana em geral e pelos homossexuais em particular. Que esta minúscula alteração da lei irá permitir regulamentar juridicamente uma série de relações que já existem e que continuarão a existir, passando ou não passando a alteração proposta. Que esta alteração não retira direitos a ninguém, não prejudica ninguém, não humilha nem descrimina ninguém, pelo contrário, é uma medida a favor duma maior abrangência em termos sociais. Não põe em causa a continuidade da espécie, não põe em causa a orientação sexual de ninguém e muito menos duma maioria que é e continuará a ser heterossexual.

Tirando os argumentos pouco claros e baseados em crenças religiosas, fiquei sem perceber porque incomoda tanta gente que uma pessoa homossexual tenha o direito de casar com a pessoa que ama! :(

Descoberta de última hora!


Acabei de assistir ao aceso debate na RTP1, "Prós e contras" sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Aceito, em termos religiosos e pessoais, alguns dos argumentos do contra, embora não concorde. Outros porém, são inaceitáveis. Os preconceitos e homofobia ficaram bem patentes em algumas palavras, vincados de tal forma nas suas personalidades que é notório que os próprios autores estão empedernidos de intolerância e azedume.

É por isso que o ponto alto deste programa foi, para mim, quase no final quando a jurista defensora dos prós interpelou a plateia do não, dizendo que um dia aquelas jovens famílias que ali estavam teriam filhos homossexuais. A reacção foi inesperada até para mim, que estou familiarizada com estes debates. O repúdio a essa possibilidade ficou expressa, a certeza dessa impossibilidade também. Terão tomado uma vacina? Podiam ter avisado os meus pais... e já agora tinham uma boa táctica para nem sequer ser necessário este debate: é só vacinarem-se! E pronto, já está, acabaram-se os pervertidos e anormais.

Ahh meu caro Milk, como tinhas razão! Se em cada família, em cada grupo de amigos, em cada empresa soubessem quantos somos, que somos nós também responsáveis pela sociedade que todos construimos, para o bem e para o mal, e que somos só mais uns deles, e que não nos importamos.

Tristes exemplos!

sexta-feira, fevereiro 13


(Via caccaocino)

Enquanto na Califórnia os 18000 casais de homossexuais que conseguiram casar antes da passagem da infame Proposition 8 continuam a lutar para que os seus casamentos não sejam dissolvidos, em Portugal continua-se a achincalhar uma luta de uma comunidade que muitas vezes não consegue ser levada a sério.

Continua-se a associar a homossexualidade á bestialidade e à pedofilia, sem o mínimo respeito por aqueles que lutam pelo reconhecimento e pela dignidade das suas relações.

É pena que este senhor ache que os homossexuais são todos suburbanos que trabalham em cabeleireiros. Por isso é tão importante o apelo a que tod@s se assumam, que mostrem quem verdadeiramente são. Professores, médicos, advogados, engenheiros, gestores, actores, e até governantes, os homossexuais que um dia levantarem a sua voz contra este tipo de achincalhamento irão mostrar ao resto da sociedade que afinal já conhecem muitos homossexuais que admiram, respeitam e de quem gostam!

Só espero que este senhor e todos os outros que gozam com a homossexualidade desta forma se arrependam e se envergonhem das barbaridades que um dia pensaram e escreveram sobre aqueles que são também seus amigos, colegas, irmãos e familiares.

Isto sim é grave!

quarta-feira, fevereiro 11



Ok, a Igreja está apenas a cumprir o seu papel, não concordam com o casamento entre homossexuais e vão apelar ao voto contra os partidos que o defendam (nomeadamente o PS).

Agora o que me espanta é que não ouvi nenhum bispo português pronunciar-se sobre a anulação da excomunhão dos bispos que negam que o holocausto existiu. Este assunto causou indignação a nível mundial porque o holocausto não está em causa nem nunca esteve e a Igreja indignou-se com esses horríveis eventos tanto como qualquer outro ser humano se indignaria!

Este papa, afastando-se claramente da humanidade que caracterizava o chefe da Igreja anterior, duma penada resolve anular a excomunhão desses bispos e ponto final. Autocrático, autista, imperdoável!

A Igreja regride... ao apoiar bispos claramente xenóbofos que exprimem as suas opiniões contra tudo o que o resto do mundo pensa. A seguir virão ataques contra mulheres e inevitavelmente contra homossexuais. Não nos esqueçamos que no holocausto não morreram só judeus! Morreram também milhares de homossexuais!

Se no seio da Igreja foram reabilitados bispos que concordam (ignorando) as barbaridades que foram cometidas pelo III Reich, para onde caminham os supostos ilumidados de Deus?... Não auguro nada de bom deste papa "negro" que já conseguiu destruir um legado tão importante e tão arduamente conseguido ao longo dos anos por esse outro saudoso papa "branco". Não sou católica mas gostava de João Paulo II, era um homem sensível, bondoso, cuidadosíssimo em relação a tudo o que fazia e dizia. Agora este Ratz... enfim!!

Mea culpa!

segunda-feira, fevereiro 9



Bem sei que houve um sentimento generalizado de desgosto em relação à reportagem da Sábado porque tentou vender a infidelidade sob um prisma favorável. Era o tal "branqueamento" de que falei no meu texto em baixo. Foi claramente uma manobra para vender e não me pareceu correcta a forma leviana como quiseram dar a conhecer uma realidade que não será assim tão glamourosa nem sensual como foi apresentada.

Mas também não foi correcto o meu post, fui leviana nos insultos que dirigi de forma generalizada e que atingiram pessoas que não os merecem porque já têm sofrimento quanto baste na sua vida. Por cada mulher casada, que se assume como heterossexual e que se envolve com outras mulheres com a conivência do marido, que até sabe, gosta e se excita com isso, haverá muitas mais que sofrem com o peso da culpa e da traição que sentem estar a cometer. Se calhar a revista Sábado devia ter-se focado mais nestas mulheres, que têm problemas de consciência, que sentem estar a fazer algo de errado mas não sabem como dar a volta à sua vida, que gostavam muito de se assumir mas por inúmeras razões sabem que não o podem fazer por tudo aquilo que está em jogo e podem vir a perder.

E o post que escrevi era na realidade um insulto personalizado... o meu texto devia ter rezado assim: "Conheço uma mulher casada, que se assume como heterossexual e com a qual eu me envolvi há uns anos atrás, que é uma cabra. E o marido dela é um parvo dum cornudo que acredita em todas as mentiras que ela lhe diz." E pronto, foi o meu momento "lavagem de roupa suja em público" pleno de insultos dirigidos a uma mulher muito egoísta que um dia quis o "melhor dos dois mundos" sem pensar nas consequências dos seus actos e sem ter a mínima intenção de se responsabilizar por eles. A reportagem da revista Sábado fez-me revisitar o meu passado e despoletou em mim uma raiva que já não sentia há algum tempo.

Mas, e como em tudo há sempre um mas, infelizmente os meus insultos atingiram outras pessoas e a elas eu peço imensa desculpa. A diferença entre essas pessoas e as verdadeiras "cabras" é que elas sentem um enorme peso na consciência, sabem que estão a agir de forma errada e procuram desesperadamente uma saída para uma situação de duplicidade que as torna infelizes. Solidarizo-me com elas, e mais ainda me enerva esta sociedade de hipocrisia que tenta vender a parte boa das relações extraconjugais sem se focar e aprofundar mais a parte má. Há muitas mulheres a sofrer por esse país fora e eu, feito elefante em loja de cristais, ainda as magoei mais... peço mil desculpas a essas mulheres e desejo-lhes muita sorte e coragem para tentarem encontrar o seu caminho.

Desculpe, afinal sim...

sexta-feira, fevereiro 6


- Está lá? É do ACP. Queria pedir desculpa. Afinal a nossa colaboradora cometeu um grave erro. Para além de distraída é incompetente, tem má vontade e a culpa é toda dela. Nós sempre quisemos cumprir a lei.
- Eu perguntei se ela estava ao corrente da lei... Até insisti para que me passasse ao responsável.
- Bem sei. Isso já está a ser tratado. A senhora tem toda a razão. Peço-lhe desculpa, em meu nome pessoal e do ACP. Lá por ser lésbica pode pagar o seguro e já agora, as cotas!!

Piadas à parte, obtive vários pedidos de desculpa, não só do ACP como da seguradora, mediadora e parceira do clube. Resta-me reflectir sobre quem não reclama, sobre quem se deixa levar pelo caminho que menos trabalho dá e sobre uma questão que me acompanha há muito: tomar, ou não, nas nossas mãos as lutas que a nós dizem respeito. Não é justo para os que dão a cara, para os que se passeiam nas espampanantes marchas, pelos que vão à Assembleia da Républica e pelos que dão beijos na rua, não obterem uma pequena ajuda da maioria de nós. Devemos fazer-lhes justiça, ajudá-los a pôr em prática o que já foi conseguido por eles.

PS: No dia em que publiquei o post sobre o ACP, antes mesmo de o fazer, escrevi um e-mail a reclamar. Respondo assim aos nossos leitores que o sugeriram e muito bem. Não é da minha natureza passarem-me com o carro por cima na passadeira e deixar-me ficar... a menos que fique inconsciente.


 

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