Egosintonia (GLBT) Vs Egodistonia (GLBT)

terça-feira, março 13

Dualidade:

1- Estive a ler o excelente artigo da revista Visão: “Somos gay, e então?” – Como os jovens portugueses saem do armário. Investigação da Visão sobre o mundo dos homossexuais e lésbicas sub-25. Neste artigo fala-se das histórias, que tão bem conhecemos, mas acima de tudo, fala de jovens que, neste momento, se sentem bem em serem quem “são” (i.e. são pessoas que são/estão Egosintónicas com a sua identidade sexual).

Para alem das histórias de vida, o artigo tem a opinião de psicólogos e activistas da comunidade GLBT, em que a determinada altura é referido que “Os jovens GLBT tentam o suicídio duas a três vezes com mais frequência do que os hetero. As causas têm sobretudo a ver com a estigmatização social.” (Egodistonia – “uma pessoa que apresenta uma característica que não desejaria ter, que a torna infeliz, que vai contra os seus desejos e aspirações mais profundas (…) o indivíduo experimenta como algo que se lhe impõe contra vontade e causa sofrimento.”)

2- A propósito da Egodistonia descobri um site “Egodistónicos – um olhar pessoal sobre a problemática da homossexualidade (egodistónica): sua causa e possível cura.”

O site é interessante, mas de alguma forma inconsistente. Presumo que seja de um jovem, uma vez que, o e-mail posto à disposição para contactos contem o nome do autor e um número (21), que eu presumo ser a idade.

Digo que o site não é consistente porque o autor aborda um sem número de questões, apoiado em artigos científicos, que de alguma forma acabam por colidir uns com os outros. Só para dar um exemplo: o nome do site “Egodistónicos” é um conceito da Psicologia, no entanto, o autor apresenta textos em que considera a Psicologia uma farsa, uma impostura intelectual (especialmente, porque esta deixou de enunciar a homossexualidade como uma doença do foro psicológico – designadamente uma parafilia).

Em suma, este site tem como missão: “Se o leitor sente que, apesar da partida de mau gosto que o destino lhe pregou, não nasceu para ser homossexual e acabar os seus dias como tal (por mais paradoxal que esta afirmação possa parecer, já que acredito sem sombra de dúvida que se trata de uma característica determinada geneticamente) e alimenta a esperança de que a breve prazo se descubram a causa e a cura para esta infelicidade / enfermidade (é como tal que a vejo) para que dela possa beneficiar – e somente para estes, não para os que vivem felizes com a sua condição – então prossiga a leitura destas linhas, pois a esperança é a última a morrer, como diz o ditado popular.

Na secção de Perguntas e Respostas tem umas “pérolas” fantásticas:

P: Por que razão é tão controverso o tema da cura, conversão ou tratamento da homossexualidade?



R: Essencialmente por três motivos interligados e que têm um efeito cumulativo:
1) Devido aos exageros cometidos no passado, especialmente (embora não só) em regimes totalitários como o nazismo, o fascismo e o comunismo;
2) Porque a maioria das vezes as pessoas que são homossexuais tiveram de crescer e singrar na vida em ambientes hostis para com a sua tendência ou orientação sexual;
3) Para se protegerem da discriminação, humilhação, agressão e perseguição permanentes os homossexuais tiveram de desenvolver um forte sentido de comunidade e uma cultura muito própria, onde são louvados e admirados todos os ícones ou personagens históricas e contemporâneas que de algum modo representam a classe e enchem de orgulho a comunidade o que, por sua vez, conjugado com os pontos anteriores, provoca uma reacção ou resposta automática (quase irracional) à mais leve alusão a questões como investigação das causas e desenvolvimento de uma cura ou método de reorientação sexual capaz de suprimir o desejo ou atracção por pessoas do mesmo sexo.

Eu compreendo o autor do site, eu compreendo a sua dor, compreendo a sua necessidade de cura e, acima de tudo, de redenção. Foi há bem pouco tempo que eu própria passei da Egodistonia à Sintonia (talvez eu não tenha a cura para a homossexualidade, mas talvez conheça a cura para a Egodistonia).

Eu sei muito bem como passei de um estádio para o outro, sei bem a quem devo agradecer, conheço bem o percurso (recuperando o 1º post deste blog - “Assim, ultimamente tenho-me confessado a amigos e familiares, nada estudado, nada de discursos feitos ou timing’s estudados, mas sempre que me perguntam pela minha vida amorosa, eu dou uma gargalhada (nervosa) e digo, “tenho uma coisa para te contar”. As reacções, tal como eu esperava foram sempre muito boas, verdade seja dita que nunca pensei sequer que poderiam ser más, eu sempre soube que todos a quem contei, que a reacção seria de surpresa, mas recebida com agrado. Por isso, a necessidade imperiosa de não “sair do armário”, não era por medo das reacções alheias, custa-me dizê-lo, mas lá terá de ser, era homofobia pura (espero retomar este assunto mais à frente no blog)!!! (…) Depois desta pequena introdução, fica clarificada a intenção do blog, é mais uma etapa na minha “fugida do armário”!!!”)

Em tudo teremos sempre a dualidade (ou muitas mais) de posturas face um determinado tema, só espero que não havendo “cura” para a homossexualidade, as possam ser felizes sendo o que são na sociedade onde vivem. Como a ciência não fornece nem a causa, nem a cura, resta-nos a dura batalha de ir mudando a sociedade.

11 comentários:

DUCA disse...

Haverá cura para a heterossexualidade? I wonder...

narizinha disse...

E haverá cura para a sociedade?
Provavelmente esse rapaz está inserido no grupo de pessoas desta sociedade que não querem ser felizes...

wind disse...

Gostei de ler.

ana susy disse...

AR...

axo sinceramente que todos passamos pela fase de negação que está sempre ligada ao medo de rejeição dos que consideramos amigos e daqueles que são do nosso sangue...
tambem li esse artigo da visão e confesso que fiquei surpreendida por ver uma taxa tão alta de pessoas que consideram ou consideraram o suicidio como forma de escape...
confesso que felizmente por mais dificil que tenha sido o processo para mim (e que ainda se encontra a decorrer, visto que a algumas pessoas que me são extremamente importantes ainda não tive a coragem de me assumir) nunca me passou, mesmo nos momentos mais complicados, a ideia de suicidio...
o que desde muito cedo resolvi que teria de acontecer era sair do meio em que cresci...o que aconteceu aos 18 anos... por mais que ame os que deixei para tras vi que essa sim era a decisão mais acertada a tomar, alem de este distanciamento por muitas vezes ter sido extremamente doloroso pois nos momentos mais tristes estava sozinha...
não me arrependo de nada do que fiz e se pudesse voltar atras não faria de outra forma.
isto para dizer que penso existirem soluções mais saudaveis...graças a deus senão...

em relação a ser uma doença tambem ja ouvi essa teoria(infelizmente)
mas confesso que se estou doente não quero curar-me!!!

jinhos

Amelia disse...

Só uma rectificação..., eu não sai de um armário qualquer! Saí de um closet de 65m2, de uma Penthouse em plena Manhattan de NYC!
E por falar em curas..., não haverá cura para a homofobia? Metam-nos em guettos e verão quão infelizes serão sem as cores animadas divertidas e maluqueiras saudáveis das Chonas. Bobagem a crime legalizado!

Trureloo,
Amélia

sem-se-ver disse...

a homo, hetero ou bissexualidade não é nem de origem genética nem do foro psiquiátrico. são opções.

ML disse...

Não acho que a homo, hetero ou bissexualidade sejam opção para ninguem.
Senão, quem é que ia optar por ser hetero? :p

é uma característica de cada um, que, por ser independente da vontade, não é uma opção.

Miss Shirley B. disse...

Deus que me livre. Ainda bem que já nasci com a "sintonia" toda! As únicas opções que tive de fazer até hoje foram tão importantes como de que cor pintar a parede da minha sala, ou algo banal e futil do género.

Paula disse...

Ai, o que ainda se diz e pensa. Pior: O que ainda se dirá e pensará por muito mais tempo! As senhoras em cima já dizeram quase tudo. Curem-se os doentes, mas só aqueles os que realmente são!
Brigadinhas AR por nos continuares a brindar com qualidade.
Besito!

Paula disse...

Onde se lê: Dizeram, queria escrever disseram.
Perdoem a azelhice, bem como o sentido do texto todo, não correu muito bem. Mas o essencial está lá!
Besito nº2!

estreladonorte disse...

ML,
Disseste tudo, melher! Apesar de aparentemente minimalista, não há orçamento que chegue para te pagar essa contestação. :-)